A política cultural ideal deveria priorizar a busca da valorização artística e do bem-estar das pessoas. Essa afirmação veio do diretor do Sesc/SP, Danilo dos Santos Miranda, em debate promovido pelo jornal O Estado de S. Paulo para discutir a cultura no Brasil. No mesmo evento, o antropólogo Hermano Vianna citou alguns exemplos muito interessantes – apresentados abaixo – que mostram o quanto o Estado pode atrapalhar a cultura popular e como estamos distantes de fazer valer a afirmação de Danilo.
No início dos anos 90, o funk carioca surgia com vitalidade nos morros do Rio de Janeiro. Mesmo com dificuldades técnicas e pouca estrutura, jovens cheios de talento e alegria criavam novas músicas, lotavam bailes e iniciavam um grande movimento musical. Por absurdos preconceitos e falta de visão, o poder público carioca tratou de proibir os bailes e perseguir os artistas do funk. Obviamente, os bailes não deixaram de acontecer: foram transferidos para lugares mais isolados, onde o governo não chegava, e ganharam a proteção das facções do tráfico de drogas surgidas na mesma época. Logo depois apareceram os proibidões e a apologia ao crime. A música periférica do Rio passou ao largo do Estado – que literalmente entregou o ouro ao bandido.
As festas de animes (desenhos animados japoneses) reúnem milhares de pessoas em várias cidades do Brasil. Elas se vestem como seus personagens favoritos, curtem shows de rock japonês, dançam e cantam em mega apresentações coletivas, acompanhadas por grupos de percussão. Um universo enorme, pouco conhecido por quem está de fora.
O interessante é que os desenhos que inspiram essas festas não passam na TV: são todos baixados pela Internet. O Ministério da Justiça proibiu tais desenhos de serem exibidos antes das 20 horas, classificando-os como violentos. Evidente que essa legião de fãs não deixou de se divertir por conta da proibição. Assim, a Internet propiciou a criação de uma cultura pirata que movimenta e anima tanta gente.
Rede na Rocinha
O Orkut conquistou o Brasil e milhões de jovens mergulharam no site de relacionamento. A febre foi tão impressionante que impulsionou o interesse dos jovens das comunidades mais pobres pela web. Só na favela da Rocinha existem 50 lan houses. Assistimos a um processo de inclusão digital que nenhum projeto público conseguiu realizar – mas o comportamento jovem mais uma vez foi contrariado. Com a finalidade de combater a pornografia, o Ministério Público quer proibir o Orkut para menores de 18 anos. Será que tantos usuários vão aceitar isso ou vão procurar um outro espaço de convívio e relacionamento na Internet?
Os três exemplos dados por Hermano mostram uma verdadeira política “anticultural” – mais perfeita tradução da falta de sensibilidade do poder público sobre o comportamento das pessoas. Decisões duvidosas são produzidas em larga escala e atingem em cheio a cultura brasileira, sem sequer passar pelo Ministério da Cultura. Movimentos importantes são tratados como caso de polícia e envolvem órgãos de segurança, que adoram adotar medidas paliativas e escandalosas para chamar a atenção da mídia.
Concordo que a política cultural deve ter como objetivo o bem-estar das pessoas. Essa é a grande contribuição da cultura para a felicidade dos cidadãos. Ao lado das necessidades sociais e econômicas que devem ser garantidas pelo Estado, existe o direito ao lazer, à diversão e à livre expressão, elementos fundamentais de uma sociedade feliz.
*Alê Youssef, 31, é sócio do Studio SP e um dos coordenadores do site www.overmundo.com.br.
crédito ilustração: “CD. Amp. e falante”, 1998, acrílica sobre tela, in Rasura, de Luiz Zerbini, editora CosacNaify, 2006
