Por Kátia Lessa, de Brasília | foto Gprado/Sambaphoto
Eram seis horas da manhã quando o telefone de Dener Giovanini tocou, pedindo um sinal de fax. Do outro lado da linha, uma voz feminina falava inglês. “Aqui é do gabinete do secretário-geral da ONU, Kofi Annan.” O documento manuscrito comunicava que ele havia recebido o maior prêmio ambiental do mundo, o Unep-Sasakawa de 2003, Nobel do meio ambiente. Até hoje, a ONU só pagou os US$ 200 mil a vinte ganhadores do mundo todo – incluindo o brasileiro Chico Mendes, que foi assassinado em seguida. “Espero que depois desse prêmio meu destino seja diferente do destino do Chico”, brincou durante o discurso de agradecimento.
A brincadeira tem fundamento. Em 2000, nosso herói abriu mão de cidade natal, família, diploma de letras e emprego fixo como
secretário do meio ambiente de Três Rios (RJ) para combater o tráfico de animais no Brasil. “Um dia bateu na porta da secretaria um policial rodoviário federal com uma gaiola com 40 macacos apreendidos”, contou ele à Trip em seu escritório, em Brasília. A polícia não sabia o que fazer. Fiquei dias rodando entre zoológicos e Ibama com os bichos no meu carro, até que um dos zoológicos aceitou cuidar dos animais. Uma semana depois, chega a polícia de novo com uma ambulância apreendida. Tinha 1.800 pássaros lá dentro! Como os policiais viram que eu arrumei solução para o problema, não pararam mais de levar os bichos. Minha sala virou um minizôo”, lembra. Giovanini organizou as informações sobre os bichos apreendidos em um site para iniciar uma ação regional de combate ao tráfico. As denúncias não paravam de chegar. Aí teve a idéia de propor uma série de reportagens no Jornal Nacional. “Durou seis dias. No primeiro programa recebemos 28 mil e-mails. Percebi a dimensão do problema. Daí é que pedi demissão para o prefeito, para me dedicar exclusivamente ao combate ao tráfico”, justifica.
Dedo no vespeiro
A empolgação foi tanta que Dener criou a Renctas, ONG voltada ao combate do tráfico de animais silvestres, hoje referência mundial. A boa vontade era grande, mas Dener não conhecia exatamente o terreno em que estava pisando. “Um dia fui convidado para dar uma palestra no Rio”, recorda. “Quando acabei o trabalho, estava na calçada de Copacabana, em plena tarde, e ouvi alguém gritando o meu nome de um carro. Me aproximei para ver o que era e dei de cara com uma pistola. O cara puxou o gatilho: ‘Sua batata está assando! Se continuar com isso o bicho pega!’. Aí caiu a ficha do vespeiro onde eu me enfiei… Minha mãe não parava de receber ligações ameaçadoras, eu acordava com barulho de tiro… O sítio onde eu morava foi baleado duas vezes! A situação ficou tão crítica que resolvi sair do Rio, a capital do tráfico, por isso vim a Brasília, onde estou próximo aos órgãos oficiais com que posso conversar”, explica. O susto passou e ficou a indignação. Dener se tocou que para continuar com a Renctas teria de mapear o país e descobrir o perfil dos predadores.
O resultado foi um relatório que virou a bíblia do combate ao comércio ilegal de animais silvestres no Brasil. Ali se lê: do outro lado da pistola, está o terceiro maior comércio ilegal do mundo, 500 quadrilhas especializadas. As denúncias redundaram em duas CPIs no Congresso. Afinal, os traficantes de animais têm ligação direta com traficantes de armas e drogas: muitos usam os mesmos galpões e rotas de transporte para cocaína e passarinhos. Não à toa, freqüentemente são encontradas drogas dentro de animais vivos. Em 1998, ingênuas jibóias apreendidas no Rio de Janeiro ocultavam saquinhos de cocaína; debaixo dos cascos de 300 tartarugas, a polícia achou 1,37 t de maconha.
Muitos traficantes migram das drogas aos animais. Lucro garantido: paga-se R$ 0,02 para crianças de comunidades ribeirinhas no Amazonas em troca de borboletas azuis, que movimentam US$ 100 milhões por ano. Peixes giram US$ 600 milhões. Uma única araraazul-de-lear sai por R$ 60 mil; um mico-leão-dourado, em extinção, R$ 20 mil. O mercado cresce 15% anualmente, movimentando hoje US$ 2,5 bilhões anuais no Brasil – responsável por 15% do tráfico. Lembre-se: de cada dez animais retirados da mata, só um chega vivo ao consumidor final. São 38 milhões de bichos que saem da natureza para zoológicos privados, todo ano. E nem é tão difícil ter um animal silvestre legalmente: basta comprá-lo em criadouros comerciais, documentados com nota fiscal. Você deve exigir o número de registro no Ibama, com a determinação da espécie e identificação individual
do espécime comercializado (anilhas ou microchips).
“O tráfico é uma barbaridade que envolve gente pesada”, sentencia o ambientalista. “Fiz um documentário chamado O bicho dá, o
bicho toma. A informação vazou e os traficantes ficaram preocupados com o que apareceria. Nossa produtora foi invadida! Tentaram roubar o filme; meus funcionários foram amarrados, pistolas na cabeça… Um dia antes do lançamento no Rio, levei a equipe para conhecer o Pão de Açúcar – e dois caras apontaram armas na minha direção na frente dos turistas! Dentro do bondinho! Na noite de estréia, a polícia levou cães farejadores de bomba e 50 oficiais”, lembra Giovanini, revoltado. “É preciso parar de ver o cara que vende passarinho na feira como um coitado que precisa alimentar a família. A mentalidade do brasileiro está mudando. Antes, entrávamos nos mercados com a polícia florestal e éramos vaiados. Hoje o vendedor de tomate dedura o cara que vende passarinho porque sabe que ele pode estar cheio de doenças selvagens, que passou por maus-tratos, que o cara também vende cocaína etc… Se você muda a mentalidade do povo, o trabalho fica muito mais fácil.”
