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Plano B

Se você curte skate, provavelmente já deve ter ouvido falar de Tommy Guerrero – na década de 80, ele fez parte da legendária equipe da Powell Peralta, a "Bones Brigade", ou "Brigada dos Ossos". O que você provavelmente não sabia é que o sujeito tem uma banda. E das boas. Livre-se de qualquer estereótipo de “skateboard music”; nascido em São Francisco, ele sempre foi um entusiasta da boa música e, aposentado da tábua, resolveu aprimorar seu conhecimento (e paixão) pelo baixo.

Alegando uma influência musical que vai de John Coltrane a Tortoise (!), o cara lançou “Loose Grooves & Bastard Blues”, seu disco de estréia, em 1998. O surpreendente sucesso do lançamento fez com que Guerrero fosse atrás de uma banda de apoio. O resultado da busca foi a formação do Jet Black Crayon, formada por amigos e também skatistas: Monte Vallier, o batera Tim DeGaugh, e DJ Gadget.

O disco resultou numa turnê e em 2 discos subseqüentes, um deles – “A Little Bit of Somethin’” – lançado pela sempre atenta gravadora Mo Wax. Em 2004, mais um LP, o interessante “Soulfood Taqueria” – ainda pelo selo Galaxia, mesmo do álbum de estréia – e, por fim, a transferência para a Quannum, e o lançamento do motivo de todo esse blábláblá: “From The Soil To The Soul”, pepita que acaba de sair do forno em terras estadunidenses, e obviamente sem previsão de lançamento no país das gravadoras auto-suficientes.

O resultado é uma miscelânea de estilos com ênfase no funk wah-wah (“Badder Than Bullets”), batidas de hip hop e breaks, e downtempo com uma pegada bluesísitica (“No Guns More Glory”). Apesar de ser permeada por uma linha de baixo bem vigorosa, a atmosfera do disco é tranqüila. A faixa "Salve" tem participação especialíssima do nosso camaradinha Curumin (que, para quem não sabe, também é artista contratado da Quannum). Ele solta a voz e o resultado é ótimo: “Pra lá, pra cá, de banda, de rolê, nessa selva eu tô suave, salve…”.

A abertura do disco, “Hello Again”, traz apenas percussão e um pianinho, quase um lounge, que logo já dá passagem para uma violentíssima linha de baixo em “The Underdog”, com 3 minutos de um loop beeem funkeado, e um solo de guitarra do próprio Guerrero. O break em“Tomorrow’s Goodbye” lembra alguns sons de DJ Shadow, outro militante da Quannum, à época em que sua única pretensão era se divertir e samplear coisas finas, com a diferença que em "From the Soil (…)" a coisa é ao vivo.

“1966” é um soul funk com o tradicionalíssimo orgão Hammond marcando a cadência ao fundo. “Let Me In Let Me Out” é o som que mais se aproxima do rock, e tem no vocal o japa Lyrics Born, também MC da Quannum – o ex-skatista aproveitou a gravação do disco para promover uma festa de confraternização da firma. “Just Ain’t Me” traz o próprio Guerrero no gogó, com o refrão “What you want from me, I can never give” (O que você quer de mim eu nunca poderia oferecer) cantado repetidas vezes sobre uma hipnótica linha de baixo e um som bem sujo de bateria, no melhor estilo lo-fi.

Se fosse pra resumir "From The Soil To The Soul" em uma palavra, ela seria "versatilidade". A sonoridade do disco absorve várias nuances sem cair na armadilha de soar irregular e serve de párabola para a própria trajetória de Guerrero: ao trocar o skate pela música, o artista (esportista?) mostra que o plano B pode funcionar tão bem (ou até melhor) do que o A.

[por Pedro Pinhel]

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