Diz a letra da música: você tem fome de quê?
No meu caso era de comer uma pizza. Uma pizza napolitana, aquela de mozzarela com rodelas de tomates espalhadas, como se fossem rodas de carroça ensangüentadas (forte, não? É a imagem que me vem na cabeça, fazer o quê?). É uma noite de domingo. Um domingo em que o São Paulo acaba de ganhar, no Morumbi, do Corinthians e, pouco depois eu saberia, fez o técnico Antonio Lopes pegar o boné e a porta de saída. Bem. Não fui ao jogo. Não gosto de futebol. Nem sei por que falo do jogo, mas a coisa é que decidi sair para comprar uma pizza e comer em casa. Por que não pedir uma entrega? Não sei, tanto faz, mas vou me arrepender para sempre desse ato impensado.
Vou até a pizzaria que tem em uma praça aqui perto de casa. Já tinha ido lá, para comer a tal da pizza sentado em uma mesa azul, várias vezes. Depois de dar duas voltas no quarteirão acho uma vaga para estacionar o carro.
O outro click
O garçom da porta, quando digo que é para viagem, me diz para ir até o fundo, para fazer o pedido. É só subir uns degraus até onde fica o forno. O caixa fica lá, ao lado. O rapaz do caixa é gentil. O perfume que ele está usando é um pouco forte, mas isso não é problema, o problema é que ele está sentado atrás do computador cortando as unhas. Cortando as unhas com aquele aparelho metálico que faz click. Um click que inclui, atire a primeira pedra quem nunca usou esse aparelho e presenciou o espetáculo, pedaços de unha recém-cortadas voando pelo espaço. Faço de conta que não vejo o que estou olhando. Faço o pedido da napolitana. O cara me diz que vai ser rapidinho, dez minutos. E continua cortando as unhas. Os garçons aparecem e desaparecem com pedidos de cobrança, e o cara continua. Com aquele intervalo, entre um click e o outro, que começa a me dar náuseas no estômago. Veja bem, como dizem, o rapaz do caixa está a poucos metros dos pizzaiolos que levantam e abaixam a massa para fazer as pizzas. Fico imaginando quantos pedacinhos de unhas cortadas (limpas?) grudaram nessa massa. Será que algum grudou na minha? Será que os clientes sabem o que está se passando?
Pego e pago a minha pizza. Saio do restaurante, caminho alguns metros, quase vomito atrás de uma árvore e jogo ela (a pizza) fora.
Nessa altura do relato, antes que mais da metade de vocês jogue uma pizza, ou um cortador de unhas, na minha cabeça, direi que sim, que já sei que neste país existem não sei quantas pessoas que passam fome e que comeriam a tal da pizza com pedaços de unhas, ou com a surpresa que fosse, na sua massa. Porém, aí porém, não tinha ninguém lá perto para eu passar a razão de meu estômago embrulhado para frente. Um. E dois: não posso dar para outro comer o que eu não comeria.
Resumo da história. Você tem fome de quê? De uma pizza. De boa educação. E o contrário também.
*J. R. Duran, 53, parou de comer pizzas (e de cortar as unhas) desde o domingo em questão. Seu e-mail é: studio@jrduran.com.br
