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Pessoas

Vivo a dizer que foram os livros quem me salvaram. Mas, na verdade, antes dos livros, as pessoas que os trouxeram foram muito mais importantes. Os livros salvaram a imaginação; deram asas ao sonho e ao ideal. Mas as pessoas fizeram muito mais que isso. Deram-me outras vidas. A dor me levou às pessoas e aos livros; seria insuportável sem ambos. Teria me perdido novamente. Elas me ofereceram oportunidade de ver e os livros me ensinaram a pensar.

Entender e agir era minha parte do trabalho.
Acho que somente os loucos não pensam que são loucos. Talvez eles tenham outras coisas mais importantes a se preocuparem. Tacharam-me de louco quando me enfiei para dentro dos livros. Nem dei bola; queria mesmo enlouquecer, estava cansado da normopatia que orientava a maioria. “Mais louco é quem me diz, e não é feliz, não é feliz…”, como diz a música.
Estava desesperado com a rotina, o tédio e a monotonia; suportar transformava-se em sacrifício imenso. Louco ficaria se continuasse naquela apatia que é a vida prisional. Decidi correr atrás de meus sonhos. É óbvio que continuava tão perdido como todo mundo, mas agora havia uma objetivação, uma história a construir.

É incrível pensar que todas as pessoas que extraíram verdades de seus esforços e genialidades o fizeram por cada um de nós. O mais incrível ainda é que nós, a partir deles, podemos ir além. A gente sabe pouco sobre isso; mas muita sabedoria é produzida diariamente. Há muita gente tentando defender teses sobre o que consideram verdades. As universidades processam conhecimento e informação diariamente. As sabedorias antigas hoje estão a séculos de distância dos avanços que se fizeram depois e a partir delas.

Considero filosofia hoje uma busca mais cientificamente dirigida ao conhecimento. Não dá mais para ser idealista; ao tempo que não dá para ser materialista. Mas já não dava para ser estóico ou epicurista nos tempos pré-socráticos. Na verdade, o pós-modernismo afirma que não dá mais para nada mesmo. Nem isso nem aquilo; nada disso ou daquilo.
A história acabou e agora resta o indivíduo. Faço o melhor de mim e estarei fazendo um bem a todos. Mas será que só em não ser problema me satisfaria?
É certo que a história não é tudo. Não dá para a gente se encontrar nela porque somos sempre outro; a soma do que fomos com o que a vida vai nos propondo. Acho que é aí que entram as pessoas. Acredito que a gente se perdeu porque era só isso que poderíamos ter feito. Há poesia nisto; nos perdemos porque nos misturamos, nos envolvemos com os outros. Hoje os problemas do mundo são nossos problemas. Tudo está encadeado e comprometido. Sempre estivemos ocupados demais em sentir, perceber as pessoas e o fabuloso mundo que nos cercava, para poder realizar uma vida diferente da que tivemos.

Por outro lado, essas preocupações dizem respeito aos outros. À escola dos filhos; à qualidade de vida daqueles que amamos, por exemplo. Tem gente que é poesia viva em nossa vida, trazendo motivação, esperanças e alegrias em seus ares. A nossa alma arfa só de pensá-las; a espessura interior delas nos encanta. Vale a pena encher nossa vida de preocupações, por elas. Claro que depois a gente vai descobrir que elas são humanas e que têm os pés de barro, como os nossos. Mas aí já estamos atirados à devoção e tudo fica tão grande que nem importa mais.
Porque fiquei preso tanto tempo, pode-se imaginar que nada sei sobre relacionamento humano. Penso o contrário. Acho que participaria do Big Brother com a maior tranqüilidade do mundo. Piscina, comida boa, um monte de nada para fazer, gente bonita e interessante para trocar idéias, quem sabe até namorar… Se deixassem levar o laptop, eu até toparia. Do programa No Limite, então, tomaria parte com um pé amarrado nas costas. Para quem esteve nas masmorras do Estado por mais de 30 anos, sendo obrigado a passar por trocentas rebeliões, choque da PM e celas-fortes, aquilo não tem nada de limite. Tem mais a ver com mordomias, luxos e prazeres.

Aqui fora ninguém faz o que realmente afirma. Na prisão, a ação tem que estar em tempo real com a fala. Tudo é mais visceral. Ninguém precisa fingir nada porque todo mundo é o que se afirma. Não há por que máscaras, as coisas são ditas no tamanho certo. E por isso mesmo acho que nada importa tanto quanto pessoas. Quando não há nada, ainda assim vale a pena envolver pessoas. São movimento, vida, esperanças de alguma alegria ou beleza.
Às vezes é preciso respirar fundo. Amo homens e mulheres, mas acho impossível admirá-los. Claro, há exceções e esse é o engano: criar modelos, heróis, super-homens. Tudo falso. Porque o que vale de verdade é o ser humano normal que chora, sofre, sorri e é capaz de ser feliz, apesar de e em qualquer condição. Vivi momentos imensamente felizes mesmo estando preso. Cheguei a casar e até fui pai duas vezes, mesmo preso, quer alegria maior?
As coisas como que se arrumam em torno de nós, mesmo que de ansiedade e insônia. E a vida nos obriga a querer saber. Claro que não há nada que possa ser dito que já não o foi. Acho que escrever é exatamente isso: revestir idéias de palavras, na tentativa de melhor explicar, sem esperar esgotar jamais. Esse é meu trabalho e as pessoas são o alvo.

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