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Pequenas coisas, grandes idéias

A liberdade de cada um começa e termina em lugares cada vez mais estranhos. Do ralo ao túmulo, a história da humanidade pelo cineasta imigrante

Pequenas coisas, grandes idéias

em 11 de novembro de 2005

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Toda vez que lavo pratos, a espuma do detergente escorrendo pelo ralo da pia me faz pensar na limpeza fascista da minha ex-esposa. Vejo o assoalho do nosso apartamento em Roma, sempre impecavelmente enceradinho, como que só para provar que eu era um porco – se não fosse por ela, moraríamos numa pocilga. Do assoalho, os olhos da minha memória se levantam para o rosto dela, vermelho de raiva porque eu nunca prestei para nada. ‘Stronzo, deficiente, testa di cazzo! Os insultos dela em italiano ecoam aqui dentro de mim e eu lavo os pratos com todo cuidado, tentando provar para mim mesmo que não sou um porco.

Quando toco “Manhã de Carnaval” no violão, do Luiz Bonfá, um acorde em lá menor com sétima tem a mania de me levar para uma praça perto de onde meus avós moravam em Copacabana. Não sei se é o som do acorde, as palavras da canção ou a posição dos dedos no braço do violão que despertam a lembrança. Mas, sabe Deus por que, a digressão continua e sempre na mesma ordem: a imagem das árvores da praça se associam à barriga de um amigo obeso que fez uma cirurgia e implantou um grampo para diminuir o estômago e emagrecer. Uma vez ele ficou com um cachorro quente entalado no esôfago. Outros acordes da mesma canção não suscitam lembrança alguma.

Às vezes, quando estou transando, viajo sem perceber para a avenida Rebouças, em São Paulo. Vou descendo em direção aos Jardins, passo pelo Paulista Grill, perto da redação da Trip, e quase chego ao cruzamento com a avenida Henrique Schaumann. Quem foi este Henrique Schaumann? Provavelmente um vereador. Será que o Lula sabia da corrupção no PT? Ouvi dizer que Yahoo vai ficar incompatível com Internet Explorer. Tem uma gostosa passando na rua. Adoro a vulgaridade das moças inglesas que andam com calças de cintura baixa e mostram as calcinhas despudoradamente. Preciso pagar a conta do telefone esta semana sem falta. Hoje é Yom Kipur, dia do perdão para os judeus.

Peço auxílio a um dicionário inglês – português. Procuro a palavra “solipsism” para saber se existe um equivalente em português. Existe. A tradução é mesmo “solipsismo”, que é definido como “doutrina que considera o eu como única realidade no mundo”. É uma forma de egoísmo intelectual.

Exponho minha babaquice tentando entender a babaquice coletiva, assim perdido e perdidos entre os meus-nossos motivos e as razões do resto mundo. “You”, em inglês, vale para “você” e “vocês” ao mesmo tempo. Entender os limites entre o singular e o plural é o grande desafio no caminhar cambaleante desde o ventre da mãe até o túmulo.

*HENRIQUE GOLDMAN, 44, CINEASTA, TEM O TALENTO PARA ENXERGAR AS GRANDES QUESTÕES DA VIDA NAS PEQUENAS COISAS DO COTIDIANO. SEU E-MAIL É: hgoldman@trip.com.br
Ilustração Sesper

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