Segunda, logo cedo, peguei um ônibus para entregar dois livros novos para a minha editora. Estava em paz. Depois de longo esforço, lá estava o produto. Só restava esperar o veredicto da editora. Missão cumprida. No ônibus, não havia lugar para sentar. Fiquei de pé, próximo à porta. Várias senhoras e moças em torno. O ônibus seguia a mil, o motorista parecia não perceber que transportava gente.
De repente, um senhor que estava sentado bem abaixo de mim levantou abruptamente e posicionou-se em frente à porta, meio trêmulo. O cobrador não viu; o homem soltou um jorro de vômito que bateu na porta e desceu para o solo, meloso, gosmento. Um vazio se fez repentinamente em torno do homem. Todos próximos se afastaram enojados. O motorista apertou mais ainda o acelerador, o homem bambeou quando veio a brecada. Sai de minha posição, tentando ampará-lo na queda. Não foi preciso.
O ônibus parou, a porta abriu, e o homem como que espirrado degraus abaixo saiu andando pela calçada, cambaleante, sem olhar para trás. A cena durou segundos, só quem estava virado para a porta viu; estávamos todos tentando manter o precário equilíbrio.
O fedor do vômito subiu. As pessoas murmuravam, incomodadas, querendo parar o ônibus para descer. O cobrador, jovem de gestos largos, olhou para mim, passageiro mais próximo da proeza, com olhos acusadores e cara feia. Apontou o dedo e afirmou que devia fazer eu comer aquilo de volta. A acusação pesou como uma bigorna em minha cabeça. Todos me olharam.
O animal interior quis rasgar o véu, mas estranha paz me envolvia. Um senhor de certa idade tomou minha defesa. A culpa era do motorista, que corria exageradamente julgando transportar cavalos. Mas dele também, que devia estar atento aos movimentos dentro do veículo e socorrer o passageiro que passava mal, era pago para isso. O rapaz, agora acusado, defendeu-se dizendo que era pago somente para cobrar. Quem fazia aquilo no ônibus era porco, ainda me associando ao cheirão ácido de azedo que enchia as narinas. Algumas mulheres quiseram apoiá-lo.
Perguntei, agora já gostando do debate, se nunca haviam vomitado em suas vidas. Uma delas assumiu que todo mundo tem esses problemas, mas que eu devia fazer aquela sujeira na janela e não dentro do coletivo. Entrei no jogo. Mas como, respondi; não dá para segurar e muito menos dirigir quando a porcaria vem. O ônibus chegou no ponto em que eu ficaria. Desci dizendo, cinicamente, que eles estavam condenados a ficarem sentindo meu fedor; eu já ia saindo fora. Fiquei rindo na calçada, imaginando as maldições e ofensas, enquanto o ônibus seguia corcoveando por entre os buracos do asfalto.
