Uma revolução possível

Com o auxílio luxuoso de Stevens Rehen e dezenas de outros cientistas de ponta, construímos esta edição da Trip com ciência

por Paulo Lima em

Trip / Ciência / Drogas / Comportamento

Stevens Rehen, o neurocientista que inspirou e orientou esta Trip, faz parte de uma geração muito interessante. Nascido no início dos anos 70, viveu a juventude num cenário em que o Brasil começava a se reiluminar depois de décadas cinzentas, sombrias, como se diz mais frequentemente. A redemocratização começava a deixar de ser só um desejo coletivo. O movimento Diretas Já se apresentava como o trailer de uma transformação real da nação dominada pela ditadura que reprimiu com violência desmedida as tentativas de revolução perpetradas então. Stevens tinha 15 anos quando a Trip foi pela primeira vez às bancas.

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Falando em revolução, um pensamento no mínimo perturbador é frequentemente atribuído ao líder espiritual Dalai Lama. O tibetano teria dito numa de suas preleções públicas que nenhuma das revoluções levadas a cabo pela humanidade teria conseguido sequer chegar perto de suas promessas – a Revolução Francesa, a Revolução Industrial, a sexual, as comunistas, nem mesmo a tecnológica... Nenhuma delas teria de fato conseguido levar a humanidade a um estado de espírito e das coisas minimamente mais razoáveis, em termos de livramento das angústias existenciais, da distribuição mais equânime das riquezas materiais e de menos disputas e tensões de todos os níveis.

O Dalai Lama teria encerrado cravando que, no entender dele, só havia uma revolução com chances reais de lograr objetivos como estes: a revolução espiritual. Não seria nada necessariamente ligado a religiões ou a qualquer sentido mais místico, mas, sim, uma espécie de tomada de consciência coletiva sobre noções básicas como interdependência, a ligação atávica e inegociável que une tudo o que é vivo (e até o que não é) neste mundo. Ou a simples ideia de que o entendimento de nossa precariedade e finitude deveria nos ensinar a viver de forma um pouco menos ligada a atender exclusivamente aos desejos, à acumulação material e à satisfação dos pequenos prazeres.

Uma simples passada pelos aplicativos e redes que distribuem notícias que não sejam fake deixará desanimado o cidadão mais otimista. Porém, um sobrevoo por sobre diferentes frentes de ciência – e de seus laboratórios mais desenvolvidos – parece apontar para uma revolução silenciosa e extremamente potente. O diálogo cada vez mais íntimo entre saberes ancestrais (até pouco tempo restritos a comunidades, florestas, pajés ou xamãs isolados) e pesquisadores e cientistas (também à sua maneira, por muito tempo isolados e refratários a qualquer coisa que não estivesse sacramentada pelo universo acadêmico ocidental) pode estar produzindo alívio e cura para as mais temidas desordens dos nossos organismos. E não só: os entendimentos e o alcance de novos estados de consciência e de conhecimento podem nos levar a uma condição coletiva um pouco menos estúpida e destrutiva. É com a pretensiosa intenção de lançar um pequeno, porém poderoso, foco de luz sobre os indícios desta revolução que dedicamos nossos esforços para, com o auxílio luxuoso de Stevens e dezenas de nomes de ponta da ciência e dos saberes ancestrais, construir esta edição da Trip com ciência. Quem sabe não será estudando o efeito de plantas, cipós, minerais, animais e outras riquezas da natureza, combinadas com os algoritmos, tecnologia e instrumentos científicos, os saberes mais modernos, que chegaremos, enfim, a um lugar de mais sentido e de alguma harmonia.

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