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Para acabar com a guerra entre israelenses e palestinos

Uma batalha dos perdedores

em 21 de setembro de 2005

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As imagens de mortes e o sofrimento causado pelos conflitos e atentados no Oriente Médio há dias ocupam a gavetinha do cérebro na qual vou guardando os assuntos que quero abordar nesse espaço. Sobre esse assunto, porém, não há nada que eu pudesse escrever que expressasse melhor aquilo em que acredito do que o trecho da carta escrita pelo profissional de comunicação Ricardo Guimarães para sua coluna na ‘Trip’ e que, especialmente agora, acho fundamental repartir com os leitores deste diário:

Você consegue imaginar o mundo depois da possível terceira guerra mundial?

Depois da suposta Jihad? Está claro que essa guerra é entre dois mundos.

Aproveitando a definição do físico Marcelo Gleiser, que falou da ‘escravidão espiritual’ na qual vive o mundo dogmático fundamentalista, acrescento a ‘escravidão material’ em que vive o mundo da sociedade capitalista consumista. Condeno os dois mundos e não reconheço nenhum deles como donos da verdade nem como instrumentos de alguma justiça. Ao contrário, ambos erram e guerreiam porque se julgam donos da verdade e vítimas da injustiça.

Que verdade? Que justiça?

Se você analisar a história da civilização, vai descobrir que todas as guerras foram feitas em nome da Verdade e da Justiça. Podem ter o fundamento que for, mas sempre me senti ameaçado quando alguém puxou o crachá e se disse representante da Verdade e da Justiça. Culpa? Pode ser.

Mas o fato é que desde pequeno a Verdade e a Justiça nunca me prometeram um final feliz. Por isso eu digo que essa guerra é velha. Tão velha que esse talvez seja o seu último capítulo. Se o mundo sobreviver a ela, terá aprendido que a única causa capaz de unir a humanidade e viabilizar a paz é o Amor.

Babaquices à parte, não falo do amor ao próximo que esquece o amor a si mesmo. Não falo do amor paixão que tem objeto claro e definido. Não falo do amor carinho que alimenta e aconchega. Falo do acolhimento incondicional de tudo que existe e da vida como ela é: diversa, misteriosa, imensa, surpreendente, criativa e incontrolável. Falo da confiança que esse acolhimento proporciona. Falo de uma força que, quando permitida, nos une, nos cria, nos educa, nos harmoniza e nos embeleza. Se você está reconhecendo um velho hippie propondo ‘make love, not war’ para combater o ineficiente ‘no justice, no peace’, você acertou. Não desisti de nossa utopia.

Se a gente sobreviver ao último capítulo dessa guerra velha, será porque teremos aprendido a lição de pensar no todo e na parte simultaneamente. E, portanto, teremos desaprendido a pensar com exclusividade e teremos aprendido a pensar com inclusividade.

E é aí, em nome desse aprendizado, que entra o meu convite: imaginar esse outro mundo a partir das lições aprendidas e dos sonhos que sonhamos quando apostamos no futuro – por exemplo, quando fazemos filho, quando abrimos uma empresa ou quando nos vemos velhos.

Mundo inclusivo

Se temos um lado melhor e um lado pior, deixemos o lado melhor sonhar. Economistas não sonham, políticos não sonham. Pais sonham, mães sonham, ser humano sonha. Juntemos nossos afetos, nossos sonhos e imaginemos. Temos um impulso natural para nos divertir, para a alegria, para a descontração, para a união, para a beleza, para a liberdade. Nós já estamos prontos para isso. Já encontro homens, mulheres e organizações fazendo planos com esses sonhos. Mas talvez não sejam tantos a ponto de impedir a guerra.

Porque, na falta de um mundo imaginado a partir do nosso melhor, deixamos o nosso melhor na mão das religiões e o mundo à mercê do mercado. Essa dissociação é que faz a guerra. E, nessa guerra, seremos sempre perdedores não importa quem sai ganhando.

PALAVRAS-CHAVE
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