Hoje de manhã acordei e por um longo e confuso momento não soube dizer onde estava. Vasculhei com olhos sonolentos o quarto de hotel ao meu redor, mas os móveis genéricos não ofereciam o menor indício de minha localização geográfica – poderia ser igualmente o Holyday Inn de Munique ou o Meliá de Tegucicalpa.
Liguei a televisão, mas a cotação da bolsa de valores de Nova York no noticiário da CNN só aumentou meu sentimento de alienação. Só quando olhei para a minha mala no chão fui lembrando que estou em Lusaka, na Zâmbia.
Foi aqui em Lusaka que, no início dos anos 60, o escritor americano Paul Theroux viveu uma intrigante aventura. Idealista e aventureiro, o jovem Theroux tinha passado um ano inteiro ensinando inglês como voluntário num vilarejo perdido nos cafundós da Suazilândia, no coração da África. Aquele ano mudou completamente a vida do menino de boa familía. Ele passou a valorizar a sua independência acima de tudo.
Decidiu que um dia faria grandes viagens pelo mundo e escreveria muitos livros sobre elas. Arrogante como todo idealista, Theroux pensava também ter compreendido os mistérios da África e do resto do mundo. Voltava para casa levando em sua bagagem a solução para o problema da fome, do colonialismo e do subdesenvolvimento.
Em Lusaka, na noite antes de pegar o avião de volta para o conforto de Massachusetts, Paul ainda teria tempo de aprender mais uma lição. Uma lição humilhante, mas por isso mesmo talvez a mais importante de todas. O que aconteceu em Lusaka o faria questionar todas as suas certezas. Sentado em um boteco ele conhece os irmãos Nina e George. Alta, magra, peitos majestosos e curvas sensacionais,
Nina é a crioula mais gostosa que Paul já viu. George é muito afável, inteligente e simpático. Depois de muitas cervejas, Paul os acompanha até em casa, um barraco miserável numa fétida favela.
Paul passa a melhor noite de sua vida comendo a Nina. Eles passam o dia seguinte também bebendo, trepando e Paul acaba perdendo o avião. Os dias de Natal transcorrem na mesma mancha ofuscante do sexo e embriaguez. Toda vez que Paul mencionava partir, Nina o levava para o quarto e o calava com a força avassaladora de sua buceta. Aos poucos Paul percebe ter caído em uma armadilha, se descobre prisioneiro e não se entende mais quem é vítima ou carrasco.
Não continuo a contar a história porque ainda estou escrevendo o roteiro inspirado na aventura de Paul Theroux. Na geometria da relação entre Paul, Nina e George quero discutir raça, dinheiro, amor e tesão. Vim a Lusaka em busca de idéias para inserir a história em um contexto atual. Imagino a Nina quando vejo as putinhas da boate freqüentada por turistas alemães. Imagino equivalentes contemporâneos de Paul Theroux nos jovens mochileiros que entrevistei na estação de ônibus.
A última invasão que a África sofre é a do turismo humanitário, de jovens ocidentais que aqui vêm desesperados para salvar outros desesperados. Nesta relação entre bonzinhos e coitados, nunca sei bem se me identifico mais com os africanos ou com os europeus. Acho que essa é uma condição muito brasileira.
Sem ainda entender nada de Lusaka, só consigo olhar para a Cairo Road, a rua principal de cidade, como se fosse uma espécie local de avenida Paulista – uma cidade totalmente desconhecida é a versão sonhada da nossa cidade. Mas fora do meu hotel não há nada de genérico e globalizado a me confundir. O ceu é muito azul, as ruas exalam uma sexualidade animal e a expectativa média de vida na Zâmbia é de apenas 36 anos.
*Henrique Goldman, 44, cineasta, não tem culpa de se sentir culpado. Seu e-mail é: hgoldman@trip.com.br
