O Instituto de Tecnologia de Massachusetts desenvolveu um software que coloca palavras na boca das pessoas. A primeira versão foi lançada em julho passado na Siggraph, que é a maior conferência de computação gráfica do planeta. A lógica da invenção é simples. Uma câmera de vídeo grava quatro minutos de conversa de uma pessoa qualquer. O software mapeia as diferentes posições da boca do entrevistado. Não são muitas. Os cientistas chegaram à conclusão de que 46 dessas posições podem sugerir a emissão de qualquer som monossilábico, de qualquer língua. A partir daí, os programadores podem reconstruir sinteticamente o vídeo e a fala do entrevistado, combinando os movimentos faciais com a declaração sonora que quiserem. Qualquer uma.
Em português mais claro: o software pode fazer o Silvio Santos aparecer dizendo que vai doar todo o dinheiro do Baú para a Igreja Universal. Ou o Galvão Bueno surgir cantando ‘Mamãe Eu Quero’ em coreano. Não precisa nem pingar ayuhasca no copinho de salmoura que ele usa para lubrificar as cordas vocais. As imagens são de um realismo impressionante. Essa primeira versão só funciona com planos frontais. Imagens de perfil ou câmeras em movimento ainda não podem ser alteradas, mas a equipe liderada pelo neurocientista Tomaso Poggio garante que é apenas questão de tempo. Num futuro próximo, eles acreditam que qualquer depoimento poderá ser modificado.
A máscara caiu
Óbvio que já tem muita gente preocupada. Vai sobrar gente querendo alterar declaração de político, celebridade ou terrorista, conforme o interesse. À primeira vista parece assustador, mas não sei, não – tenho mais medo do jeito que vão usar o software naquelas piadas do Programa do Jô. Vejo a disseminação de um software explícito assim com otimismo. Acho que ele pode cumprir a função educativa de ajudar o grande público a entender definitivamente que não assiste a um veículo transparente. E derrube, assim, o mito implícito de que a TV é a janela da alma do nosso tempo.
Como qualquer espaço de comunicação desde a pintura de parede das cavernas, a televisão é um veículo de (re)construção de realidade. Sempre. Mesmo quando se diz ‘jornalística’, a imagem de Fulano de Tal dando depoimento é pura construção. Começa pela empostação do próprio Fulano de Tal, passa pelas rédeas pré-intencionadas do repórter e termina na manipulação do editor. Isso para não falar do papel do próprio espectador nesse processo. Afinal, é bom não esquecer que nós, espectadores, somos seres que conseguem ver Nossa Senhora numa mancha de vidro de janela. Imagine o que não projetamos nos milhares de imagens que bombardeiam diariamente o vidro da tela da TV.
Você conhece, você não confia
Ao assistir às cenas alteradas pelo programa, alguns teóricos norte-americanos disseram que estamos chegando a um momento em que o nível de desconfiança em relação ao meio televisual vai ficar tão alto que será difícil comunicar através dele. Será? Num mundo de relações humanas mediadas por aparelhos eletrônicos, não consigo imaginar nada mais saudável para a sociedade que o aumento desse ‘nível de desconfiança’. Desconfio que quanto maior a descon-fiança melhor vai ficar a comunicação. Dentro e fora do meio.
Eu nem de longe sou adepto da paranóia conservadora que vê na tela eletrônica uma seqüência imoral de mentiras. Ao contrário, acho que a TV se potencializa justamente quando se liberta de conceitos pré-midiáticos como ‘fato’ ou ‘ficção’ e descobre que a sua grande reality é um show em que tudo se mistura. Assim, torço para que programas como o do MIT nos ajudem a enxergar mais tons, mais teores de realidade. Nem a mais artificial das inteligências pode aceitar a idéia de que o show da vida montado pela mídia seja vendido como realidade absoluta, igual à da vida imediata. Como no cinema ou na literatura, a relação entre o espectador e a TV é regida por um princípio fundamental bem simples: ‘Me engana que eu gosto’. Maravilha. É o que queremos. Mas que a enganação seja eterna só enquanto dure a transmissão.
