Pacto pela hipocrisia

Alê Youssef: "Debates caem no esteriótipo do maconheiro doidão"

por Alê Youssef em

Debates caem no estereótipo do maconheiro doidão. Enquanto isso, o "fumei mas não traguei" tomou conta de muitos políticos que poderiam fazer a diferença

Legalizar é antes de mais nada colocar na legalidade, ou seja, no mundo ou no domínio das leis. Trata-se de uma maneira inteligente de lidar com algo absolutamente enraizado não apenas na sociedade brasileira, como em todo o mundo. É por isso que pipocam pelo globo iniciativas de países que pensam além de suas minorias conservadoras estridentes. É um novo olhar para a segurança pública, uma visão mais ampla sobre liberdades individuais e uma estratégia bem mais coerente do ponto de vista da saúde.


Existe um pacto moralista e por “bons costumes” dessa minoria superconservadora formada pelas bancadas religiosas – deputados(as) eleitos(as) por parte do voto católico/evangélico – e pela bancada policialesca – parlamentares com estilo Bolsonaro, conectados a apresentadores de TV escandalosos e com o universo que ganha votos e dinheiro pregando ao mesmo tempo a barbárie e o feroz combate a ela.

Existe também um pacto pela hipocrisia, que assola a maioria dos políticos do país, inclusive muitos de origem de esquerda – incluindo ex-perseguidos políticos, exilados, intelectuais –, o que faz com que o contrário ao conservadorismo não tenha representantes para defender uma política cabeça aberta. Com isso, a maioria dos debates é esvaziada ou cai em uma simplificação, no estereótipo do maconheiro doidão e inconsequente. Enquanto isso, o “fumei mas não traguei” tomou conta de muitos políticos que poderiam fazer a diferença.

Maconha entre nós
Do lado de quem pensa diferente, FHC, mesmo que tardiamente, se pronunciou a favor da regulamentação. Fernando Gabeira, depois de anos sendo discriminado por suas atitudes libertárias, mantém sua postura. Paulo Teixeira sempre que pode se manifesta pela mudança da legislação. O Coletivo DAR e a Marcha da Maconha, além de promoverem as manifestações pelo país, iniciaram importante mapeamento de apoiadores e captaram depoimentos em vídeo sobre o direito de se manifestar e pela legalização em si. Cada vez é mais comum ver artistas e formadores de opinião se encorajarem e darem depoimentos sobre o tema.

Esta edição histórica da Trip é um dos sinais de que alguns núcleos vivos da sociedade começam a se movimentar em torno do assunto.

O lado conservador/hipócrita de nossa sociedade, contudo, é muito forte. Basta ver o quão raivoso ele age contra o direito à união homoafetiva conquistado através da histórica decisão do STF, driblando a Câmara de Deputados. A legalização da maconha dificilmente encontrará a mesma facilidade para avanços nos tribunais.

A maconha está entre nós. Ignorar isso é deixar de lado anseios geracionais e de certa maneira compactuar com os conservadores – que apostam na “maluquice” dos “maconheiros”, que jamais conseguiriam fazer nada – e com os hipócritas, que acham que essa geração não é capaz de promover uma mobilização social tão grande sobre o tema. Quem é a favor da mudança da legislação tem que dichavar essa causa, apertar o cerco da história e fazer a política cabeça aberta. Na net, na rua, no clube, na escola, na faculdade, no trabalho. Em todo lugar. Só com argumento e mobilização chegaremos lá. Não tem outro jeito. A bola está conosco.

* Alê Youssef, 36, é sócio do Studio SP e um dos fundadores do site Overmundo. Foi coordenador de Juventude da Prefeitura de SP (2001-04). Seu e-mail é ayoussef@trip.com.br. Seu Twitter é @aleyoussef

 

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