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Outros meios ambientes

Foto Fernando Lazslo

O vento traz resquícios de nuvens escuras que trouxeram chuvas. Na rua, poças d’água rebrilham a cor do aço da luz dos postes. Anoitece e eu estava pensando: não há memórias para o tempo perdido. Chorar não conta tempo e viver não tem desculpas.

Faz um ano e nove meses que saí da prisão. Depois de mais de trinta anos preso, vivo sendo surpreendido pela vida, pelo tempo e principalmente pelo espaço. Quase tudo está tão diferente que não consigo discernir se para bem ou mal. Aos poucos, vou concluindo que estou diante de uma nova realidade. Que não é boa ou ruim; simplesmente é, quase como estivesse em outro mundo.

No começo, me confundiu imensamente. Até andar entre as multidões foi difícil aprender. Porque tudo que era antigo acabou. O trânsito tornou-se impossível. Parece que todo mundo tem carro. Prefiro andar a pé. Claro, tem o metrô. A maravilha das maravilhas. Chão de borracha, paredes de aço, educação e respeito numa nave espacial.

A cidade virou um mercado em aberto. Vende-se de tudo nas ruas. Barracas, pequenos tablados, mesinhas e produtos expostos afunilando as calçadas. O que mais me emocionou foi observar com que coragem as pessoas lutam pela sobrevivência.

A princípio fui enganado várias vezes. Depois comecei a entender melhor. O mundo faz da transformação sua palavra de ordem. Para mim, mudar, transformar, significa não avançar. Conquistas que nos custaram caro demais. Tudo é muito pragmático: não mudamos, apenas desenvolvemos, atualizamos potenciais. Penso que todos estão ensaiando e errando ao mesmo tempo, por conta disso o caos aparente.

As ruas estão cheias de inimpregáveis, drogados, mendigos, prostitutas, meninos de rua e outros nomes para essas pessoas apagadas socialmente. São enterrados cerca de 50 indigentes por mês na cidade de São Paulo. Pessoas que ninguém sabe quem são, sem família, nada. Afastam-se da vida como a ela chegaram. A vontade parece que se foi, apenas ficam, amolentados pelo álcool, jogados pelas calçadas.

A maturidade fez de mim um leitor da vida e das pessoas. Busco sentir. A tentativa é de capturar o ser humano que há por dentro de cada uma dessas pessoas. Acho que tudo que é vivo esfria, no tempo. Talvez fosse preciso chegar umas brasas e assoprar, reavivando. Mas temo que o fogo puro, alaranjado de potência, a substância que criou e envolveu os acontecimentos, esse talvez tenha se perdido.

O homem inventou apenas um sistema que funcionou sempre. A descartabilidade de tudo o mais parece ser a tônica. Mas a vida em sociedade, a civilização, permaneceu indestrutível. Guerras se sucederam, povos e cidades foram destruídos mas o ideal de vivermos todos juntos continua, inexplicavelmente.

Pelos meios de comunicação recebo informações sobre a degradação do meio ambiente. A água potável tem seus dias contados, o ar está cada dia mais poluído, florestas são derrubadas. Não penso que seja apenas produto da ganância humana. O mundo se expande, a vida se alastra e não sabemos fazer nada sem ensaio e erro. Creio que esta é a fase do erro. Daí porque tudo nos parece caminhando para o fim.

Criar é ato cotidiano do homem. Nada a ver com invenções científicas ou tecnológicas. Muito menos de obra de gênio ou arte. Sacrifícios pelos filhos; desprendimento de interesses individuais; assumir riscos em prol de objetivos maiores; rompimento com o ser instintivo, que busca sua satisfação imediata, por um ideal de amor ao outro são algumas das formas de criação humana que considero as mais importantes.

É nessa criação que leva a humanidade além que, acredito, está a solução de milênios de tantos erros e poucos acertos. Quem sabe se inaugure, paulatinamente, uma nova era de acertos que não cesse mais. Potencial e capacidade o homem tem, resta atualizar. Não acredito que os erros humanos serão capazes de degradar o meio ambiente definitivamente, como querem os cientistas. Mas, com certeza, a indiferença com que as pessoas observam isso acontecer sem nada fazer, sim. O homem é rei de seu próprio inferno.

“A vida é uma aventura perigosa”, afirmou Helen Keller. Eu acrescentaria que ou é perigosa ou não é nada.

*Durante 31 anos e 10 meses Luiz Alberto Mendes, 53, viveu num meio ambiente árido como nenhum outro: a prisão. Autor de Memórias de um Sobrevivente e Às Cegas (Cia das Letras), para ele, ecologia tem outro significado. Seu e-mail é: mendes@trip.com.br

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