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Outras Palavras – Tudo é processo

Outras
Palavras

Tudo é processo

Por Ricardo Guimarães
ILUSTRAÇÃO:
NÚ-DËS/BLEQUE-TONHO-EDUARDO

Caro Paulo,
Acho que o nosso maior desafio é ganhar dinheiro
fazendo o que gosta e acredita.
A gente já conversou muito sobre isso principalmente porque tanto eu como
você – você muito menos- lidamos com uma das atividades mais cheias de
dinheiro, sem consciência e cafona que é a propaganda. (Por isso é difícil
achar agência boa.)
Essa conversa é antiga mas está na hora de achar um ponto final para ela:
não dá mais para aguentar a justificativa de grana para se fazer o vulgar e
o errado. Do mesmo jeito que não dá mais para aceitar a pobreza em nome
de se fazer o certo e o bonito.
E isso tem tudo a ver com a expectativa que temos do nosso trabalho.
Quando eu era empregado, ouvi muito patrão chegar perto da minha mesa
e ao me ver trabalhando e me divertindo ao mesmo tempo, comentar:
‘Você se diverte tanto com seu trabalho que acho que vou baixar seu
salário!!’
Era uma piada que só tinha graça porque no fundo a relação entre
sofrimento e mérito era muito séria.
Isso era antigamente e tudo bem que naquela época o mundo andava tão
devagar e previsível que dava para as pessoas sofrerem no trabalho o dia
inteiro, a semana inteira e se divertirem apenas à noite e no fim de semana.
Ou se aborrecerem anos a fio até que um dia, no futuro, se aposentassem e
começassem a aproveitar a vida.

Jazz session

Paulo, neste mundo atual de telemática, globalização e tempo real
não existe mais depois. Não existe mais futuro. Tudo é processo.
Ou você se diverte no processo fazendo a coisa certa, bonita e
inteligente para você ou você está sempre com um crédito a
receber, precisando descontar a promissória da sua infelicidade em
alguma quebrada da vida, em geral suspeita, xtreme, cheia de
risco. Neste filme, the journey is the destination.
Essa época foi feita para a gente se divertir muito e isso quer dizer
que aquelas oito horas diárias de se fazer dinheiro e que em geral
aceitava-se como de sacrifício – por isso os lugares eram feios e o
processo escroto- fazem falta para completar a sua dose diária de
divertimento.
Divertir-se depois das seis e no fim de semana é pouco. E quem
ficar só nisso, vai ficar fora da dança do século XXI, uma dança
leve, ágil e divertida. Uma criação coletiva improvisada,
supreendente -como o jazz- e muito bem remunerada.
A sensação que eu tenho é que quem não conseguir juntar grana
com prazer e satisfação pessoal vai estragar a festa, vai acabar
cuspindo no nosso sorvete. São pessoas de alto risco.
Paulo, essa é a mesma mentalidade que aceita conviver com as
coisas feias e desarmônicas no cotidiano desde que em algum
momento tenha chance de ir ao teatro, a uma galeria, a um museu
para ver arte, apreciar o belo.
Nessa história, Paulo, tem dois bandidos e nenhum mocinho: um é
aquele que faz o feio funcional e o outro é o autor do belo alienado.
Eles são cúmplices. Duas faces da mesma moerda.
Um sustenta o outro. Repito: o feio funcional é cúmplice do belo
alienado.

Lição de casa:

Quem sacou que a sobrevivência da raça vai depender
dessa integração devia arregaçar as mangas e começar a
batalhar mais agressivamente pelo que acredita.
Outro dia no seu editorial você citou Saramago que dizia
ser esta uma época de dizer ‘Não’. Este é um belo ‘não’ a
ser dito.
Se Caetano fosse recompor “Beleza Pura“ hoje, com
certeza ele cantaria:
‘Não me amarra só dinheiro não. Mas também a
formosura’
Que tal ? Não soa melhor aos nossos contemporâneos
ouvidos?
Dando continuidade à nossa seção ‘ele-sabe-citar-autores’
vou fechar com Goethe que sonhava: ‘Quisera que os
homens bem intencionados fossem tão agressivos quanto os
canalhas.’
É isso, Paulo. Vou voltar agora para as minhas contas para
saber quanto vou cobrar pelo nosso trabalho e como vou
provar para os meus clientes que o preço é justo. O
divertimento já está garantido.
Fica com o abraço saudoso do amigo,
Ricardo

Divertir-se depois das seis e no fim de
semana é pouco. E quem ficar só nisso, vai
ficar fora da dança do século XXI. Quem não
conseguir juntar grana com satisfação
pessoal vai estragar a festa, vai acabar
cuspindo no nosso sorvete.

Ricardo Guimarães é diretor da agência Guimarães
Profissionais, que cuida da comunicação de marcas como
Natura, Reebok, Tilibra e Yázigi, entre outras. Seu e-mail
é: ricardo@guimaraes.com.br

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