Caro Paulo,
Como eu te dizia, vaiei o João Gilberto. João disse que
‘vaia de bêbado não vale!’ é verdade. A minha valeu. Vaiei
o João com a mesma sobriedade com que o aplaudi
quando ele acusou eco no som da maior casa de
espetáculos da América Latina.
João genial não perdoou apesar de ser o dia da
inauguração. Palmas para ele porque erros são para serem
apontados e corrigidos. é isso aí. Genial.
Mas repetir, repetir, repetir, repetir a mesma acusação é
erro que precisa também ser apontado. Vaias para ele.
Pior, vaias tristes porque um Mestre não pode, por
definição, não-suportar-o-errado.
Na verdade, quando João deixou o palco dizendo que
‘amava São Paulo mas não suportava o errado’ minha
zanga virou tristeza porque percebi que o Mestre era
escravo da infeliz busca da perfeição.
Nem me importei mais do outro Mestre, Caetano, ter me
expulso do seu coração por ter vaiado o Mestre João.
Fiquei triste porque na minha opinião o maior desafio de
nossa época é acolher a imperfeição. E na minha ingênua
tietagem eu não esperava intransigência daqueles Mestres.
Azar meu, mas Mestre tem que ver o erro como a
possibilidade de dar função a sua maestria, caso contrário,
para que maestria? ‘Não suportar o erro’ é coisa de
engenheiro que projeta prédio, ponte e som. Não é coisa de
artista. Artistas, pelo menos os que eu curto (‘I am not
perfect but I´m perfect for you!’ Lembra Grace Jones by
Andy Warhol?), são mestres da imperfeição porque buscam
justamente a expressão da condição humana, lindamente
imperfeita.
A BELEZA DO ERRO
Não quero ofender o artista João. Pelo contrário, quero até
reconhecer a beleza de seu canto considerando o eco como
parte daquele espetáculo. Naquela mesma noite, no mesmo
palco, eu vi e ouvi o mesmo João
convivendo/sofrendo/desenhando um canto único e belo
em cima do eco. Ele não desconheceu o eco e não cantou
apesar dele. João, artista sério, cantou com o eco. Mais
lento do que nunca, atento, sentido e contrariado, João
cantou com o eco. Houve entrega e foi tão bela que seu
lamento e reclamação nos intervalos era um quebrar de
encanto. No lugar do artista e do espetáculo surgia o
engenheiro e o equipamento. João cuspia no sorvete que
ele mesmo nos tinha dado a saborear. João não nos deixou
viajar no seu esforço franco de nos agradar. Por isso eu
fiquei puto. ‘Não suporto o erro’ não fica bem na boca do
Desafinado, do Pai da Bossa Nova, do Artista honesto que
ele é. é claro que a perfeição é uma referência e uma
inspiração. Mas não pode mais ser um tormento e um
obstáculo para a nossa felicidade como foi até ontem
quando era proibido caminhar contra o vento sem lenço
nem documento! Essa sociedade industrial de modelos
perfeitos já cumpriu seu papel, para o bem e para o mal.
Next! Eu amo o avesso do avesso do avesso. Atualmente
minhas leituras de cabeceira são The Art of Imperfection, de
Veronique Vienne, que eu comprei na Spiro e Wabi-Sabi for
Artists, Designers, Poets & Philosofers, de Leonard Koren,
que o Vavá me mandou de NY.
Wabi-Sabi é expressão japonesa e se refere
à beleza das coisas imperfeitas.
Eu não sei como é para você, Paulo, mas para um ser
imperfeito como eu, é muito confortável ver os dedos em
riste se recolherem, as expectativas baixarem e ver a
imperfeição ser acolhida com graça, talento e esperança.
Estamos vivendo a época do processo, da transparência,
do tempo real. Fico feliz com a imperfeição ser acolhida
numa época sem bastidores. Temos que aprender para não
sofrer.
E para o nosso povo então, o que ele mais precisa é
acolher seus erros, poder ver suas imperfeições sem medo
de ser acusado, criticado, debochado e comparado com
argentinos. Se somos medíocres e provincianos é
porque temos medo de não ser geniais e cosmopolitas.
Não somos o que devíamos ser? E daí?! Nosso som tem
eco,eco,eco,eco,eco que vira música porque somos
artistas. Temos graça, talento e esperança.
Para o nosso brasileiro, colonizado e provinciano, que
precisa construir e cultivar sua auto-estima para sobreviver
nesta coisa globalizada, é muito importante acolher suas
imperfeições sem medo de ser feliz. Eu suporto o errado!
Amo tanto o errado que eu nunca me conformei quando o
Filho era colocado à direita de Deus Pai e o lado esquerdo
era tão desprestigiado.
Eu, canhoto mas também filho de Deus, ia ficar muito mais
confortável à esquerda d´Ele ! O que há de errado em ser
canhoto?
Não é só o João que é Pato, como ele mesmo se
reconheceu naquela noite histórica! Eu também sou Pato!
Que bom! Ninguém não é Pato neste planeta tão
imperfeito, sem cortinas nem bastidores.
A vida como ela é. Este é o grande espetáculo. Grandioso,
ao vivo, imperfeito! Ainda bem que o João não foi passar o
som! Uma platéia de Patos! Belíssima inauguração! Gostei.
Fico por aqui, meu amigo Pato Lima
Ricardo
4.outubro.99