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Outras palavras: O mundo mais perto de si

em 21 de setembro de 2005

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RICARDO GUIMARÃES é presidente da Thymus Branding e da Guimarães Profissionais de Comunicação e Marketing. Seu e-mail é ricardo@guimaraes.com.br
Caro Paulo,
Que delícia ter perguntas não respondidas. Essas são as que nos levam a encontrar pessoas e visões maravilhosas que fazem valer a pena não saber. Também é bom quando essas respostas fazem eco a nossos achados, mesmo que por caminhos diferentes. De repente a solidão da busca vira mentira. Eis o que aconteceu.
Estou atrás de uma racionalidade sobre o ‘ser brasileiro’ que explique a ‘surpreendente’ competência em áreas de ciência e tecnologia de um país de que só se espera futebol, sol, mulher e carnaval. Minha tese é que, neste mundo em globalização, o ‘ser brasileiro’ tem outra performance. Já falamos sobre isso. Então tenho passado meus feriados e fins de semana na companhia de Gambinis, Serres, Freires, Prados, Friedmans, Hardts e Negris – autoridades em brasilidade e globalização. Foi numa dessas leituras que encontrei Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal, do geógrafo Milton Santos, editado no ano passado pela Record. Sempre prestei atenção no Milton Santos e até votei nele para o Prêmio Estadão. No fim desse ‘livrinho’, Milton dá show de bola. Ele se liberta do amargor do passado de nossa humanidade que não avaliza nosso futuro e se solta numa viagem leve e esperançosa cheia de possibilidades.
É tão emocionante e lindo que tinha que dividir com você e nossos leitores. Então, peço licença ao Milton Santos e a você para reproduzir aqui as quatro últimas páginas.
‘Graças aos progressos fulminantes da informação, o mundo fica mais perto de cada um, não importa onde esteja. O outro, isto é, o resto da humanidade, parece estar próximo. Criam-se para todos a certeza e, logo depois, a consciência de ser mundo e de estar no mundo, mesmo se ainda não o alcançamos em plenitude material ou intelectual.
O próprio mundo se instala nos lugares, sobretudo as grandes cidades, pela presença maciça de uma humanidade misturada, vinda de todos os quadrantes e trazendo consigo interpretações variadas e múltiplas, que ao mesmo tempo se chocam e colaboram na produção renovada do entendimento e da crítica da existência. Assim o cotidiano de cada um se enriquece, pela experiência própria e pela do vizinho, tanto pelas realizações atuais como pelas perspectivas de futuro. As dialéticas da vida nos lugares, agora mais enriquecidas, são paralelamente o caldo de cultura necessário à proposição e ao exercício de uma nova política.
Funda-se, de fato, um novo mundo. Para sermos ainda mais precisos, o que, afinal, se cria é o mundo como realidade histórica unitária, ainda que ele seja extremamente diversificado. Ele é datado com uma data substantivamente única, graças aos traços comuns de sua constituição técnica e à existência de um único motor para as ações hegemônicas, representado pelo lucro à escala global. É isso, aliás, que, junto à informação generalizada, assegurará a cada lugar a comunhão universal com todos os outros.
Ousamos, desse modo, pensar que a história do homem sobre a Terra dispõe afinal das condições objetivas, materiais e intelectuais, para superar o endeusamento do dinheiro e dos objetos técnicos e enfrentar o começo de uma nova trajetória. Aqui, não se trata de estabelecer datas, nem de fixar momentos da folhinha, marcos num calendário. Como o relógio, a folhinha e o calendário são convencionais, repetitivos e historicamente vazios. O que conta mesmo é o tempo das possibilidades efetivamente criadas, o que, à sua época, cada geração encontra disponível, isso a que chamamos tempo empírico, cujas mudanças são marcadas pela irrupção de novos objetos, de novas ações e relações de novas idéias.’
A grande mutação
Diante do que é o mundo atual, como disponibilidade e como possibilidade, acreditamos que as condições materiais já estão dadas para que se imponha a desejada grande mutação, mas seu destino vai depender de como disponibilidades e possibilidades serão aproveitadas pela política. Na sua forma material, unicamente corpórea, as técnicas talvez sejam irreversíveis, porque aderem ao território e ao cotidiano. De um ponto de vista existencial, elas podem obter um outro uso e uma outra significação. A globalização atual não é irreversível.
Agora que estamos descobrindo o sentido de nossa presença no planeta, pode-se dizer que uma história universal verdadeiramente humana está, finalmente, começando. A mesma materialidade, atualmente utilizada para construir um mundo confuso e perverso, pode vir a ser uma condição da construção de um mundo mais humano. Basta que se completem as duas grandes mutações ora em gestação: a mutação tecnológica e a mutação filosófica da espécie humana.
A grande mutação tecnológica é dada com a emergência das técnicas de informação, as quais – ao contrário das técnicas das máquinas – são constitucionalmente divisíveis, flexíveis e dóceis, adaptáveis a todos os meios e culturas, ainda que seu uso perverso atual seja subordinado aos interesses dos grandes capitais. Mas, quando sua utilização for democratizada, essas técnicas doces estarão ao serviço do homem.
Muito falamos hoje nos progressos e nas promessas da engenharia genética, que conduziriam a uma mutação do homem biológico, algo que ainda é do domínio da história da ciência e da técnica. Pouco, no entanto, se fala das condições, também hoje presentes, que podem assegurar uma mutação filosófica do homem, capaz de atribuir um novo sentido à existência de cada pessoa e, também, do planeta.’
Abraço,
Ricardo

Por uma outra globalização:
do pensamento único à consciência
universal, de Milton Santos
Editora Record, 176 páginas, R$ 20

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