Caro Paulo, urgente!
Não quero ser alarmista mas precisamos fazer alguma coisa rápido para aliviar a pressão que paira sobre a vida das pessoas. Falta de tempo, excesso de informação, futuro incerto e uma compulsiva necessidade de se divertir/distrair.
Tenho a sensação de que a sociedade está grávida de uma nova sociedade. Daí a pressão. A ansiedade e as dores do parto estão aí. Dor física mesmo, de sentir rasgar entranhas.
Eu imagino nosso nascimento: na barriga da mãe, a gente pronto para nascer, não cabendo mais ali e tendo de abandonar o conforto e a segurança daquela barriga quentinha e conhecida. Aquele lugar gostosinho não serve mais para o nosso tamanho, o conforto começa a virar desconforto nos pressionando em direção ao desconhecido, paradoxalmente, em direção à luz, à vida. É uma luta entre a vida e a morte e a morte é o conforto do conhecido. Sem chance, quero o conforto da escuridão mas a luz me espera, como combinado. A pressão é forte. O processo expõe nossa incompetência. Não sabemos sequer respirar por conta própria. Quando puxamos o ar para dentro, tudo arde, queima tudo. Não é bom mas é necessário. Vai piorar antes de melhorar.
Do mesmo jeito, a velha sociedade industrial está parindo a sociedade do conhecimento. A pressão que estamos sentindo é pressão do nosso crescimento contra a parede da barriga da mãe. Não é a parede nem a mãe que nos pressiona mas nosso crescimento.
Não cabemos mais nos modelos e nos padrões da sociedade industrial.
Nós crescemos e não podemos mais continuar na pobreza e na prisão dos parâmetros mecânicos da previsibilidade e da reprodutibilidade.
Somos humanos, criativos, únicos e surpreendentes.
Nosso crescimento pede uma liberdade que nunca experimentamos. E por mais desejada e necessária que seja, vem acompanhada de dor, muita dor, como o ar que respiramos pela primeira vez e nos queimou inteiro por dentro. Precisamos aprender a nascer.
A dor maior que percebo é naqueles que já estão prontos para nascer e não conseguem se livrar da imaturidade confortável da escuridão.
Para nascer é preciso escolher entre a vida e a morte com a determinação de quem sabe que a morte é a não aventura, é a segurança, o conforto, a não dor.
(Outro dia fui buscar minha filha Sílvia,
vitoriosa, na final do Elf Authentique Aventure 2000, em São Luiz do Maranhão, que a TRIP cobriu na edição passada. No rosto dos
participantes eu vi a alegria de quem escolheu a aventura da vida. Uma emoção simples e verdadeira, transformadora. Minha filha cresceu anos em alguns dias de prova.)
Infelizmente, a velha sociedade industrial não é a mãe amorosa que ajuda a gente a nascer. E não adianta fazer cesariana porque é o esforço de nascer que nos capacita a viver.
Paulo, se a metáfora da gravidez está valendo, acho que eu sei o que podemos fazer para aliviar a pressão do crescimento. É nascer. É se concentrar, reunir forças e se lançar na direção da luz, do conhecimento, da
maturidade; mesmo porque não temos
alternativa. A escolha já foi feita. A questão é só de delivery. A vida nos espera, meu querido amigo. Have a nice trip.
Ricardo
ps: Dedico esta coluna ao meu amigo Luiz, que resolveu usar o inspirador Dia das Mães para se parir.