Caros Joaquim, Daniela, Juca, Xará, Mariana, Emerson, Luciano, João, Júlio, Alexandre, Marcelo, Rodrigo, Gabriel, Marina, Zé Carlos e Doca:
Temos um problema. Um delicioso problema. Os temas e as idéias que vocês me mandaram são muito interessantes e eu não sei como usar todos eles aqui na coluna [leia trechos na seção Cartas & E-Mails].
Acho que vou pedir mais espaço ao Paulo, aproveitando que a revista está mudando. Recebi textos ótimos, que deviam ser reproduzidos na íntegra. Como o ‘Utopias em xeque’, de Cesar Boschetti, enviado por Marcelo de Valencio, e o ‘Revoltado ou criativo’, de Waldemar Setzer, enviado por Alexandre Lima. E há questões superpontuais que eu poderia responder com muita brevidade. Mas preferi ler nas entrelinhas de todos e pegar o espírito que permeia a conversa e que me toca.
O tema passa pela questão da identidade, utopia, criatividade, ação e satisfação. Tudo muito interligado e contemporâneo. E, para não di-zerem que forço a mão, peço a ajuda de Antonio Negri e Michael Hardt, que escreveram um livro chamado Império, sobre as duas grandes crises da nossa época: identidade e imaginação.
Eles explicam essas duas crises em função da transição que o mundo está vivendo, que é muito profunda.
SÓ SE ACHA QUEM SE PERDE
A crise de identidade se explica assim: mudou tanto a realidade, e tão rapidamente, que o indivíduo perdeu as referências que o ajudavam a definir quem ele é. A crise de imaginação mostra a gravidade maior: a mudança deixou tudo tão confuso que o indivíduo não sabe mais como o mundo funciona e acha que eles, os poderosos, é que decidem tudo. Assim, sem saber quem é, sentindo-se impotente e sem saber como o mundo funciona, o indivíduo não consegue imaginar o futuro. E, sem imaginar o futuro, ele não sabe interferir no mundo hoje. Como resultado, se entrega ao imediato, fica no raso e se deixa levar pela inconseqüência. Como ele se sente incapaz e impotente para mudar o mundo, para que se preocupar?
Esse comportamento é muito triste, mas acima de tudo arriscado – porque transforma nossa sociedade numa massa de manipulação fácil demais. Por outro lado, vendo o aspecto positivo do risco, não saber mais quem se é porque as referências mudaram é tão bom quanto perder a confiança num sistema que fez o mundo funcionar muito mal. Só se acha quem se perde.
Eta momento emocionante que estamos vivendo! Estamos perdidos, graças a Deus – sem nenhum fundamentalismo na minha gratidão. Apesar de todo o risco e sofrimento que esse desnorteamento está trazendo, considero o ‘perder-se’ vital para o amadurecimento da sociedade.
Acho que vocês que me escreveram, de alguma forma preocupados com a alienação e insensibilidade de amigos, com a falta de ação e esse sentimento de urgência de que algo precisa ser feito, estão certos. E podem fazer algo, sim. Não sei o quê, exatamente. Porque isso depende muito de cada um. Mas eu sugiro a imaginação.
INSPIRAR PARA NÃO EXPIRAR
De minha parte, batalho por uma imaginação inspirada por um indivíduo integrado, completo, totalmente realizado. Imagine um mundo que facilite esse cara acontecer na sua plenitude. Imagine uma humanidade acolhedora e não-repressora da imperfeição humana, inspiradora e estimuladora da individualidade e da originalidade. Isso chega a me dar tesão, me tira o sono – de tanta coisa que vejo por fazer ou por desfazer. Precisamos ter utopias. Precisamos nos inspirar para não expirar.
Quando observo o fluxo da natureza – sim, estou escrevendo a coluna em Itamambuca, no Litoral Norte paulista -, sinto um ritmo e uma harmonia que podem ser de nossa sociedade. Isto é, não precisamos lançar nossa imaginação muito longe para buscar inspiração de um mundo mais acolhedor de nossa humanidade. A natureza é lição e modelo. Talvez por não ter vontade nem julgamento, ela obedece melhor o plano divino e por isso é bela sempre, até quando se destrói.
Se a gente toma essa visão para olhar o cotidiano, a ação criativa e transformadora é imediata. Porque a gente passa a mudar o mundo a partir da gente mesmo, do pequeno, do possível, do perto, resultando em altíssima satisfação. Parece outro tipo de alie-nação, mas não é. Porque o que gera a satisfação é o fato de você agir na direção em que acredita e não ficar esperando que o mundo melhore para só então melhorar e fazer o que acredita. Estou muito seguro de que estamos vivendo um momento importante do processo de amadurecimento da humanidade e do indivíduo.
Se até o Bush assumiu que a questão da segurança no planeta é um pouco mais complexa do que a simplória e ultrapassada briga entre mocinhos e bandidos, que um ingê-nuo escudo antimíssel pode resolver, é porque a nossa evolução tem chance. Fico por aqui. Me escrevam para dizer se o novo formato da co-luna agradou. Confesso que foi mais difícil do que imaginei. Em alguns momentos fiquei com saudades do formato ‘Caro Paulo’. Preciso de feedback para continuar. Meu abraço,
Ricardo.