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Os outros

Uma pequena sementinha cresce. Transforma-se em uma planta, depois em árvore. Quando plenamente desenvolvida, essa árvore dá flores e frutos. Realiza sua substância e atinge sua finalidade. Antes desse processo paulatino, a semente precisa sair de si mesma para desenvolver o código genético da árvore.

Refletindo sobre isso cheguei a uma conclusão sobre o que considero o maior problema de cada um de nós: os outros. Esse é um problema de que necessitamos. E necessitamos absolutamente. Nós, praticamente, vivemos para os outros. Nos vestimos com belas roupas para que os outros nos admirem (às vezes até queremos que morram de inveja!) e NOS aceitem. E não é por outro motivo, desde que não sejamos narcisistas, que nos cuidamos fisicamente, para além da saúde e da preservação da espécie.

Nos ilustramos, informamos e nos educamos para a relação com os outros. Claro que há curiosidade, a vontade de saber É inata também. Mas o outro é sempre o alvo. Poderíamos nos aprofundar nos incontáveis motivos pelos quais temos nossa existência centrada no outro. É no sucesso ou no insucesso de nossa relação com o outro, desde que nascemos, que se estrutura nossa sanidade ou insanidade. O outro influencia e determina nossa vida por dentro e por fora de nós.

Os outros são nosso começo, meio e fim. Nascemos, somos cuidados e educados por outras duas pessoas. Elas continuam em nós a vida toda, porque é delas que assimilamos o mundo. Passamos a vida toda com os outros em torno de nós. Somos ilhas cercadas de pessoas. Depois morremos aos cuidados ou nos braços dos outros. Em todo esse percurso, o outro faz morada em nosso coração.

Vivemos e morremos frustrados porque lutamos e digladiamos para reter as pessoas para nós, e não as possuímos. Elas não são nossas. O outro é uma liberdade a realizar-se. Não é palpável, embora nossas mãos queiram se fechar em torno dele. É volátil. Está, mas não está para nós. Está somente para si mesmo. Querendo, não o temos. Só o temos quando deixamos de querer possuí-lo e o aceitamos conosco.

O outro, antes de tudo, é um estranho. Impenetrável a nós, só ele pode dar-se a conhecer, se quiser. Sempre dono de um mistério só seu, difícil de aceitar. Na verdade, nós somos estranhos até a nós mesmos. Vivemos a nos auto-surpreender e assustar. O que há de absurdamente inimaginável no outro é também o inimaginável nosso. O outro é também esse espelho convexo no qual nos enxergamos.

Percebe-se também que o outro é o nosso anjo ou nosso demônio. Traz em si, na relação conosco, o nosso céu ou nosso inferno. Por outro lado, todo mal que pode nos fazer, não é mal realmente. Apenas um dos tais problemas que carecem nossa existência para que, em solucionando-o, cresçamos. Ou o amigo. O ser amado. Então é sublime. Mesmo assim, também é problema. Tendemos a centralizar nossa existência no que amamos. Então queremos possuí-lo, dominá-lo, tomá-lo da vida para nós, com medo de perdê-lo.

O nosso maior medo é a solidão. Medo maior do que o da morte. Parece um buraco mais fundo que a própria sepultura. Já que é a distância do outro. Esse mesmo outro que é o sentido de nossa vida. Não temos muita coragem para vivermos com os outros, então vivemos presos uns aos outros. Porque, no fundo, estamos presos em nós mesmos. Presos ao medo de sair da prisão do conhecido, assimilado e controlado. Temos medo de ultrapassar, derrubar as muralhas da segurança com as quais nos cercamos.

O outro, então, é a nossa companheira, nossos filhos, pais e familiares. Pessoas às quais nos prendemos, aterrorizados diante da perspectiva da solidão. Então nos julgamos protegidos, contra o pavor que ela nos causa. Nos imunizamos contra nossos mais ricos sentimentos e emoções pelo medo, essa névoa fria das madrugadas.

O ideal seria assumir o risco de exercer nosso coração livremente. Não estamos seguros quando nos julgamos seguros. Não se consegue fugir das coisas que se quer fugir. Melhor nos arriscarmos e buscar ultrapassar o medo. Tudo há que ser considerado. Necessário se faz aceitarmos o desafio de existir profundamente com os outros, aceitando sua diferença de nós.

Nas ruas congestionadas, conduções superlotadas, no trabalho, no lazer, no mundo, o outro é toda pujança, energia da vida em festa. Resistir ao medo da solidão é ser livre para amar aos montões. E, se daí surgirem problemas, serão mais saudáveis do que aqueles que o medo à solidão nos traria.

Encontramos nos outros o que os outros encontram em nós. As pessoas erraram e vão errar conosco. Assim como nós erramos e erraremos com os outros. Errando, estamos próximos aos outros em pelo menos uma coisa: todos erramos, e muito. Quando vamos ao encontro dos outros assumimos o risco de decepcionar e sermos decepcionados. Mas não é desculpa para ficarmos em nós. Somos destinados aos outros. Cada pessoa somos nós refletidos.

O outro é alguém que não sabemos se devemos confiar, mas sabemos que é preciso. Gostaríamos de evitá-lo. Mas somos convocados a procurá-lo. Esse enigma, incógnita, nos completa, nos força a resolver a equação existencial.

É o processo de sair de si mesmo, do medo de sermos magoados ou feridos. É aquela semente que deu origem à árvore. A mágoa e a dor fazem parte da imensa paixão que é viver. Se o outro traz mágoa e dor, só ele nos traz a alegria, o amor e a felicidade. Essas são as flores e os frutos de nossa existência. A possibilidade de algo bom e belo, bem dentro, no fundo da gente.

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