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Orgulho

Sinto-me um homem no que percebo de fraqueza, de limite, de falhas dentro de mim. Na pobreza, na miséria interior que detecto nas minhas atitudes. Nessa falta de humildade, nesse egoísmo, nessa merda que me julgo ser. Principalmente na dificuldade massacrante de me relacionar com o próximo.

Sofro cada uma de minhas dificuldades em ventos que canalizam ciclones de insatisfação. Vivo preso e oprimido pelo que não consigo vencer de errado em minha natureza. Estou sempre no que se acumula de minha história pessoal e coletiva. Na presença e nos resíduos. Naquilo em que busco me fazer presente no meu tempo, cotidianamente. E sinto orgulho também. Você pode me perguntar do quê. Da minha busca incerta em ser um bom pai, por exemplo.

Esta semana, meu filho, Renato, de nove anos, veio me dizer, assim solenemente, que quer ser escritor. E salientou que como o pai. Bem queria ser escritor. Ele acha que sou. Bem, pelo menos sustento ele, seu irmão e mãe, com o que escrevo.

Ainda brinquei com ele; então sua vida será difícil e você trabalhará muito para ganhar muito pouco. Mas meu coração encheu-se de orgulho, de uma alegria que, confesso, maior que minha capacidade de absorver. Minhas mãos derramaram uma ternura mole sobre seu rosto tão amado. Uma gravidade simples, mas ácida. Uma emoção úmida, sem gestos, tão definitivamente.

Já me desesperei em sustentá-los. Vivo tangido pela tensão do medo de não ter como, e não saber como fazer. Tudo parecia depressa demais para ser visto completamente. Fiz de tudo na prisão. Dei aulas; costurei bichinhos de pelúcia; trabalhei em lacres do correio; fiz faxinas e lavei roupas; escrevi cartas; pedi ajuda para amigos, não me envergonho de dizer; desenhei letras e versos em painéis de lençóis para companheiros apaixonados; confeccionei pipas que vendia como água; um monte de coisas.

Não devia, mas me orgulho em dizer que consegui. Não lhes faltou nada de necessário, desde que nasceram até agora. Estão lá, sob um teto que é deles, bem vestidos e saudáveis, com a graça de Deus.

No começo, fui tentado. Estava na Casa de Detenção e lá valia tudo. Então me foi oferecida droga para traficar. Como não poderia deixar de ser, após trinta anos preso, conheço e sou conhecido por muita gente na prisão. O céu sempre pareceu longe demais. Mito azul de águas partidas. O lucro, convidativo. O risco, reduzido.

Não aceitei. A princípio foi pelo medo de que um de meus filhos se tornasse um viciado. Sem dúvida, iria me culpar. Eu seria água por dentro da água, e tudo a esse nível é irrespirável e súbito. Depois, mais fortalecido na minha disposição ao trabalho, tornou-se convicção. E consegui.

Sigo em luta obcecada. Trabalho o dia todo e estudo à noite. Olhos atentos como que magnetizados. A vida está presa e os tambores da noite abafam a luz do dia. O passado se foi e o futuro ainda não existe. Mergulho no presente, naquilo que posso viver, o que, na maioria das vezes, não é nem um pouco bom. Mas é minha realidade e enfrento, decidido. Então é melhor sorrir, silenciar gravemente e ficar calado sem a mínima cólera. Até a terra sofre para dar flores.

Sempre acreditei que o melhor método educativo com relação a filhos é o exemplo. Meu pai foi um exemplo para mim. Do que era torto e obscuro. Aprendi a fumar roubando cigarros dele. Aprendi a beber bebendo do fundo de seus copos. Fiquei metido a valente, admirando a valentia que ele, bêbado, exibia no bar da esquina de casa.

E tenho orgulho. De estar sobrevivendo ao sol que, com seu olho torto e amarelo, me vigia. De sozinho, em noites e dias de coração apertado, haver construído uma profissão, que meu filho hoje escolhe para si. Satisfação de que, mesmo saído de uma prisão, posso ser um exemplo positivo para o futuro de meus filhos.

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