Invejar alguém é desejar ocupar o lugar do outro, desejar ser o outro: é anular o outro, deixar de vê-lo e ver a si mesmo em seu lugar. Seremos uns invejosos, nós brasileiros?
Texto Francisco Bosco*
Ilustração Marina Grando
Eu amei o Guga. Alguns de vocês devem ter amado também. Estou falando de Gustavo Kuerten, nosso “manezinho”. Desde
que ele surgiu inesperadamente no saibro de Roland Garros, no já distante ano de 1997, para conquistar, com apenas 19 anos, o título do mais charmoso torneio do Grand Slam, eu passei a seguir sua trajetória com paixão de torcedor de futebol. Durante um breve período, ele chegou a ser o melhor tenista do circuito. Tornou-se número 1 do ranking ao derrotar o norte-americano
André Agassi na final do Master Series de Lisboa, após uma campanha espetacular. Tinha um excelente saque e a melhor paralela de esquerda que talvez já se tenha visto nas quadras do mundo.
Além dos atributos esportivos, ele ainda era dono de uma personalidade franca, aberta, calorosa, espontânea. Uma vez desenhou um coração com a raquete na quadra de saibro e deitou-se sobre ele, na maior declaração de amor que uma torcida já recebeu. Isso também foi em Roland Garros. Quando ganhava títulos muito importantes, quebrava o protocolo e invadia as cadeiras da platéia, para abraçar a mãe, o irmão e seu técnico. Emotivo, caloroso, pouco afeito a formalidades: Guga é um homem cordial, o brasileiro por excelência, na célebre definição do historiador Sérgio Buarque de Holanda.
Por tudo isso, eu amei o Guga. Mas havia algo que me intrigava. Ele costumava perder jogos para adversários que lhe eram nitidamente inferiores. E havia um oponente em especial que paralisava seu jogo. Era um francês, chamado Cédric Pioline. Nunca me esqueço desse nome, pois era o nome do homem que maltratava o Guga, o brasileiro que eu amava. Pioline era um jogadorzinho muito mais ou menos – mas era um galã, ou melhor, um galant: alto, esbelto, rosto bonito, pleno de confiança.
Pois bem, quando o Guga jogava com ele, não apenas perdia, como saía de quadra dizendo que o cara era um gênio, que nem se incomodava de perder para ele! Guga perdia para uma imagem, não para um jogador. Aquele homme charmant, legítimo cidadão de uma França que ele, Guga, parecia desejar tanto que o reconhecesse, paralisava-o. Guga olhava para ele e sua boca destilava “uma baba grossa e bovina”. Daqui a pouco volto ao autor dessa metáfora expressionista. Agora um rewind etimológico. Rwrwrwrwrwr.
COMPLEXO DE VIRA-LATAS
“Inveja” vem do latim invidia. É composta do prefixo in-, mais o verbo videre, de onde vem o nosso “ver”. O prefixo latino inpode
ter tanto uma função privativa (como em “inadmissível”, “incrível”) quanto designar um “movimento para dentro”, para o
interior de algo. É esse segundo caso seu significado em “inveja”, que portanto quer dizer um olhar que vai para dentro de alguma coisa, um olhar que se coloca dentro de algo. Invejar alguém é desejar ocupar o lugar do outro, é desejar ser o outro, ou seja, é anular o outro, deixar de vê-lo e ver a si mesmo em seu lugar.
A expressão popular tem precisão cirúrgica: é o olho gordo, o olho com fome, o olho que engole o outro, internaliza-o, ou é internalizado por ele, dá no mesmo. O paradoxo da inveja é que, vendo para dentro, ela não vê nada: ela perde a distância que o olhar exige, ela faz com que a gente se projete na pessoa invejada e ambicione seu lugar, desejando provisoriamente que a pessoa desapareça. Daí o “mau-olhado”: é um olhar mortal mesmo, um olhar desgostoso do que vê, e que por isso faz o outro desaparecer e nos coloca no seu lugar.
Sem querer fazer uma apressada psicologia coletiva, e já fazendo, será que nós brasileiros, enquanto brasileiros, somos
invejosos? É claro que “nós” somos muitos e diversos, mas há coisas interessantes a se pensar sobre isso, que valem o risco da generalidade abusiva.
O autor daquela metáfora bovina que citei a propósito do Guga é nosso grande Nelson Rodrigues. Pois bem, em suas aparentemente despretensiosas crônicas esportivas, Nelson flagrou um comportamento que julgava típico do brasileiro, e fez uma campanha insistente para sua superação. Chamava esse comportamento de “complexo de vira-latas”, que se revelava assim: o Brasil, mesmo tendo o melhor futebol do mundo, perdia para adversários tecnicamente inferiores, porém brancos, europeus, ricos e civilizados. Perdia porque olhava para os adversários e não se julgava capaz de ser melhor do que eles. Nossos Didis e Zizinhos deixavam-se abater pelo outro, e de suas bocas destilava aquela mesma “baba grossa e bovina”.
NOSSO OLHAR NÃO TEM FOME
Nelson interpreta dois instantes decisivos do processo de nossa superação do complexo. Um é Pelé. Outro é Garrincha. De
Pelé ele dizia que o craque “leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: a de se sentir rei, da cabeça aos pés”. Em outras palavras: naturalmente desprovido de complexos de inferioridade. Ele veio ao mundo para ser o Rei. E de Garrincha – um Manoel, em que ressoa o “manezinho” Guga – Nelson dizia que “não acredita em ninguém, só em si mesmo”. Que, se tivesse jogado contra a Inglaterra, “ele não teria dado a menor bola para a rainha Vitória, o lorde Nelson e a tradição naval do adversário”. Em outras palavras, trata-se de um problema de modos de olhar: Pelé e Garrincha não enxergavam os adversários, e com isso esquivavam- se de virar pedra. Só tinham olhos para a bola, sua arte, seu reinado. E reinaram. E reinamos.
O que essas interpretações de Nelson Rodrigues nos interrogam? Isto: será que somos invejosos? Diria que o complexo de
vira-latas não se confunde com a inveja, embora seja igualmente paralisante. Seu modo de olhar não ambiciona tomar o lugar do outro, fazer o outro desaparecer – simplesmente porque não nos julgamos capazes de ocupar o lugar do outro. “Somos uns
humildes!”, sentenciava Nelson. Nosso olhar não tem fome, para o bem e para o mal. E, embora tenhamos superado isso no futebol, em outros esportes e setores de nossa vida social continuamos possuídos por certo espírito de autonegação. Nós temos, seguramente, motivos de sobra para nos envergonhar de nossa história; mas também os temos para nos inspirar nela.
O Brasil é um país radicalmente ambíguo, de que um pensamento unilateral é sempre incapaz de dar conta. Deixo ressoar aqui a formulação de um outro grande intérprete do Brasil, José Miguel Wisnik, que talvez nos ensine a ver melhor, a ver nós mesmos e os outros: “É um desafio de grandeza – e ao mesmo tempo de sobrevivência coletiva – compreender que as expressões mais obscuras e terríveis da experiência brasileira participam do mesmo núcleo que gera suas expressões mais luminosas”.
*Francisco Bosco, 30, ensaísta carioca, é autor de Banalogias (Objetiva). Confessa que tem inveja do Ernesto Neto – “que está na praia ou em Kässel”
