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Olhares

Olhares gastos do que a vida lhes atira. Opacos, sujos, desatentos. Incapazes de ver além da dor que expressam. Olhares de medo, gosmentos e pegajosos. Olhos enormes e assustados a pularem de um canto ao outro em busca do que temem. Olhares perdidos em abissais regiões, para além da condição humana. Olhares apagados, sem vida, livres de pensar, de conduzir a vida pela vontade. Olhos duros, reticentes e obscuros. Olhos que somem para dentro da alma, recolhidos a uma outra dimensão da vida. Olhos em chamas, vermelhos, de crianças saudáveis que se tornaram adultos aos pedaços, mutilados. Olhos autômatos, dementados de bárbaros assassinos. Olhares doentios, ameaçadores que tentam intimidar. Olhos que não lembram a página do livro que estavam lendo e perderam o hoje alguns capítulos atrás.

Olhares de quem abriu mão do presente em nome de garantias de futuro e se deram mal. Olhares de um mar de gente que se estende por toda minha volta e caminha comigo. Olhares do tempo, do trabalho, que me tomam de você. Olhos que gritam espasmos de ventania e gemem como gatos. Olhares revoltosos que emanam atmosfera sombria. Olhos vítreos de gelatina, que deixaram de ser o que eram. Olhos cínicos, que passam vistas e não enxergam. Olhos que escapam, rompem e se entregam ao nada, ao vazio. Olhos que sofrem, mas não ardem, reduzidos ao silêncio e à imobilidade. Olhares de deboche que saltam da cara, enquanto a vida arfa e restaura.

Olhos coloridos, longos, vestidos de alma, que nos acolhem. Olhares transgressores, de desordem interior. Olhos que buscam, ávidos de tudo o que houver. Olhos de angústia, do desespero contido no viver. Olhos premidos pela voracidade existencial que pressiona e quer tudo. Olhares divididos na tentativa de serem justos, generosos, e a vida toda. Olhares cheios de esperança em fazer a diferença, derrotar a miséria e o sofrimento. Olhos que busca resposta ao que expressa, insubmissos, em permanente revolução. Olhos implacáveis que não perdem o foco jamais. Olhos que admiram e, por conseqüência, amam. Olhos profundos e cansados de quem têm muita responsabilidade e pouco tempo.

Olhos de gente que é poesia viva e que traz sonhos e alegrias em seus ares. Olhares ternos, carinhosos. E não há nada melhor que um olhar amoroso. Olhares protetores de pai e mãe. Olhos de quem quer mostrar o que vê quando ninguém esta vendo. Olhos simples que a tudo muda, sem cessar. Olhares de quem sabe que vai dar tudo certo, porque dar certo e final é a mesma coisa para eles. Olhos que inauguram sorrisos e encantam. Olhos saturados de história, prontos para decisões verdadeiras. Olhos de elegância e nobreza vestidos. Olhares cientes de que ninguém agüenta mais e que é preciso dar um basta. Olhos que querem fazer voar os pensamentos antes de acabar. Olhares tristes de pessoas belas que se unem porque encarar o sol e a vida sozinhos tornou-se impossível.

Olhos, olhares, famintos de alegrias, cóleras e paixões verdadeiras. Olhos líquidos de dor fecunda ou paz profunda. Somos nós em nossa vã tentativa de atropelar o destino e ser feliz a qualquer preço.

Luiz Alberto Mendes, 54, é autor de Memórias de um Sobrevivente, entre outros livros. Solto há 3 anos, ele passou 30 anos vendo tudo atrás das grades.

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