Caro Paulo,
São quatro horas da manhã de um sábado, no cemitério Parque da Colina, Belo Horizonte, Minas Gerais. Quando você me ligou no celular eram dez da noite, eu tinha acabado de chegar de São Paulo e não deu para comentar o tamanho da coincidência de estarmos você e eu em BH no mesmo dia, mesma hora, ainda que você para uma festa e eu para um velório.
A coincidência maior é que o velório que me trouxe a BH é daquela minha tia querida de 75 anos que escreveu sobre a TRIP e você gostou tanto que acabou dando uma assinatura para ela. Eu ia te ligar de volta para curtir a coincidência, mas os encontros cheios de afeto e saudades com os primos e tios mineiros tomaram conta de mim de tal forma que não sobrou para mais nada. Só agora, de madrugada, achei um canto e um tempo para escrever a coluna que preciso entregar na segunda.
Sempre que me encontro num lugar e num momento de alguma forma especiais como esses, me pergunto o que estou fazendo aqui. Por que estou aqui?
Longe de casa
Desde que não é um problema de falha de memória, essa pergunta tem um sentido mais épico, mais biográfico, como se eu quisesse saber se não tinha nada mais importante para fazer na minha vida do que estar ali, sentado num banco frio de mármore, numa madrugada gelada, longe de casa, num cemitério em Belo Horizonte.
A resposta veio tão rápida quanto clara: estou aqui porque gosto da tia Francisca. Isso seria razão, isto é, emoção suficiente. Mas tem mais: eu admiro sua história e de tio João. Esses dois protagonizaram uma das histórias de amor mais bonitas e maduras que conheci. Tipo love story mesmo. Uma mistura de luta e graça, fé e humor, arte e religião, uma história que começa nos dois, vira família e abre para a comunidade com um carinho e uma autenticidade que não se vê muito por aí.
Tio João, 83, que é professor e escultor, vai sofrer com a ausência da tia Francisca. Mas, pelo que pude observar no seu jeito, a dor não vai morar no seu coração. Percebi que a ausência da amada vai apertar seu coração sim, mas também percebi um coração tão limpo, leve e luminoso que a dor não vai ter onde grudar para permanecer. A dor passará pelo coração do tio João apenas quando a lembrança da ausência vier, e isso será um instante.
A dor de quem ama
A dor não terá lugar e por isso não vai morar no seu coração. Acho que dor é assim para todo o mundo que ama de fato, que esgota a possibilidade do amor numa entrega tão grande que não sobra nada para lamentar que algo não foi entregue.
Gostei de ver a dor aguda e profunda no rosto de tio João, porque o amor da tia Francisca justifica essa dor. Mas do mesmo modo gostei de ver seu sorriso leve e franco no momento seguinte, porque significava que toda a dor tinha sido esgotada no momento anterior, ficando o estado natural da vida de quem ama, um bem-estar ou estar de bem de quem sabe que Alguém cuida da gente quando a gente se descuida, enfim, de quem sabe que o Amor existe.
Eu tinha que estar aqui. Para ficar de bem comigo, para reverenciar tudo isso e para aprender a sofrer com a dor do tio João. Registro aqui em público minha gratidão por Maria Francisca e João Pontello.
O salto ao Planalto
E a sua festa, como foi? Duvido que tenha sido mais interessante que o meu velório. Paulo, eu sei que a edição desta co-luna precede as eleições e a gente tinha combinado de falar de política. Mas neste silêncio precioso desta noite tão amorosa está difícil falar de Lula, Ciro ou Serra. Então vou dizer rapidamente o que penso. Primeiro, não acho que os programas de governo se diferenciem essencialmente. Pelo que vejo, todos são baseados em ideologias humanistas, em boas informações sobre a realidade e em pesquisas de mercado (maldito marketing político que pasteuriza programas e candidatos!). Poderiam se diferenciar na maneira de gerenciar cada programa, mas não vejo a dinâmica socio- econômica dar muita liberdade de escolha como vimos no acordo com o FMI. Então restam as pessoas: gosto da impaciência e da destemperança do Ciro, mas isso é problema grave para um presidente da República num mundo que precisa cada vez mais de serenidade para ser gerenciado; gosto da honestidade do Lula, mas vejo honestidade como pré-condição e não como competência para ser um presidente da República; finalmente não gosto do jeito do Serra antipático e pouco comunicativo, mas também não é isso que faz um bom presidente.
Sendo assim, voto no Serra. Faz tempo que acompanho sua carreira e acredito que ele seja capaz de administrar o país com toda sua complexidade e fragilidade diante desses tempos bicudos.
Abraço do amigo que passa a noite feliz entre a vida e a morte,
Ricardo.
