Artigos publicados esta semana na Folha de São Paulo corroboram com a pauta desta coluna. A Time em matéria sobre tênis inflou a categoria feminina, com maiores chances de trazer resultados aos norte-americanos, em detrimento da masculina, que bem conhecemos o favorito. No mínimo, um bairrismo. Já o abandono dos EUA da conferência contra o racismo, solidários ao Estado de Israel, é questão bem mais complexa e pertinente.
A edição de outubro da revista Surfing traz, sob o título ‘What would Hitler do?’, de autor identificado apenas como ‘local boy’, o seguinte texto em sua seção de cartas:
‘Em referência ao artigo de Nick Carrol sobre o crowd de Pipeline e suas idéias sobre isso, aqui está a melhor solução: pegue um papel e escreva para o Congresso, seu representante, senador e presidente. Fechem os portões! Imigração está fora, fora de controle! Especialmente visto de visitante para os brasileiros!!
Na verdade, se os brasileiros não fossem permitidos fora do seu país, o mundo seria muito mais seguro para o surf. Se você conhece um brasileiro morando ou trabalhando ilegal, chame a imigração. Se você está contratando um imigrante ilegal, envergonhe-se!!!
Tome partido, faça do mundo um lugar melhor. Mande os brasileiros para casa!!! Chega de pregos dropando em suas barrigas!!! Nem mesmo aquelas com boas bundas!!! Elas são as piores!!!’
Indignado com a publicação da carta, mandei um e-mail para a revista e obtive a seguinte resposta:
‘O preconceito histórico nos Estados Unidos daqueles que são WASP (White Anglo-Saxon Protestant) contra tudo aquilo que não tem pele cor de neve, olho azul e cabelo amarelo ainda bate forte nos corações de muitos americanos. Infelizmente, por aqui, essa é uma problemática tão cotidiana quanto a última cesta de Shaquille O’Nell – que, por sinal, é negro, mas, como é rico, vive vida de branco de Hollywood, com direito a sexo com loiras de peito inflado. Então, não é surpresa ver esse tipo de comentário em uma carta enviada a Surfing. O racismo vive alegre e saltitante nos bairros, freeways, escolas e praias dos Estados Unidos. (Não que no Brasil seja muito diferente… um racismo aprofundado pelo gigantesco apartheid social etc.) Segundo o Senior Editor da Surfing, Matt Walker, que lida com a seção de cartas, a mensagem é tão absurda que não valia sequer um comentário do editor. Mas, ele acrescenta, como reflexo da realidade, era importante que publicássemos o material. ‘O idiota que mandou o e-mail deve ter tido uma seção frustrada onde algum brasileiro tava matando a pau e pegando todas as ondas’, diz Walker. ‘Acho que o melhor comentário está no título, ‘What would Hitler do?’. Basicamente chamamos o cara de líder Nazista’.’
Se foi no mar, no emprego ou a mulher que esse infeliz perdeu para algum brasileiro, não vamos saber, mas torço para que tenham sido todos.
De resto, vale uma reflexão sobre a hospitalidade com que tradicionalmente recebemos qualquer ‘John’ que apareça por aqui falando inglês, e que remete à nossa própria auto-estima.
No surfe, no cenário internacional, há anos nivelamos nossa representatividade com a dos ‘anglo-saxões’. Já por aqui, ainda temos que conviver com a mentalidade tacanha e a criatividade medíocre de quem faz e aprova publicidade como a dos outdoors que foi veiculada recentemente estereotipando os surfistas.
NOTAS
TOW-IN
É nesta quinta-feira no Rio o lançamento da primeira Copa do Mundo da modalidade. Idealizada e organizada por brasileiros, a prova será em Jaws, Havaí, entre novembro e janeiro próximos, com 15 duplas e US$ 110 mil em prêmios.
WQS
Os australianos estão se esforçando para quebrar a hegemonia brasileira na divisão de acesso. Em Portugal, último seis estrelas da temporada, os brasileiros não chegaram ao pódio. Taj Burrow venceu e assumiu a ponta no ranking.
SUPER SURF
Na próxima semana, na Prainha, RJ, dois líderes podem garantir por antecipação o título nacional. Andréa Lopes é a franca favorita, já para Tânio Barreto vai ser mais difícil. Nunca, desde a criação do circuito ano passado, um atleta venceu duas etapas.