Londres, pleno inverno. É um domingo feio, cinza e sem redenção. O céu aqui é um pentelho. Relapso na sua vontade de estragar o dia, ele se limita a derramar sobre a cidade uma neve brocha e esquálida. Resolvo dar uma banda pelo Mercado de Camden Town. É lá que eu vou quando perco a fé na humanidade. Nos domingos as ruas de Camden se lotam com hordas de cyberpunks coreanos, rappers curdos, DJs mongóis, hare krishnas eslovenos e gays capixabas. É uma pororoca alucinada, o encontro das raças na encruzilhada das eras.
Camden, na sua extrema bioétnico-diversidade, é para mim importante como as Ilhas Galápagos devem ter sido para Charles Darwin quando ele elaborava a sua teoria sobre a evolução das espécies. Através dessa microscópica fração do mundo, tento intuir o universo. Mas não encontro nenhuma resposta plausível a nenhuma grande questão. Talvez porque ? ao contrário do gênio evolucionista ? eu me identifique e me confunda com o objeto de minha observação. Me sinto parte dessa esdrúxula humanidade. Andando por Camden celebro a minha própria esquisitice em meio a uma multidão de gente esquisitíssima.
Passo por um bar, um pub, de onde provinha um som da pesada. Um puta solo de guitarra entoa ?Smoke On The Water?, do Deep Purple. O irresistível canto de sereia me atrai para dentro do bar. Testemunho um espetáculo arrepiante: é uma banda de roqueiros velhos, carecas e enrugados. Apesar da idade avançada eles tocam com a vitalidade de leões indomáveis. O vovô na bateria foi membro do Judas Priest e sola como se tivesse tomado uma overdose de Viagra. Os trejeitos e caretas do guitarrista se confundem com tremores senis. O público também é surreal. Groupies septuagenárias e matusaléns com suas Harley-Davidson estacionadas na porta. Vem um conjunto após o outro e os membros são cada vez mais gagás, os pés cada vez mais na cova. É a negação encarnada da legendária frase ?too young to die, too old for rock?n?roll?. No pub Fusileer and Firkin, em Camden, nunca, jamais será tarde para o rock?n? roll.
Ricardinho Mais Preto
O repertório é invariavelmente aquele que eu curtia quando tinha catorze anos. Led Zeppelin, Yes, Focus, Nazareth etc. Na época eu era vocalista e letrista de um conjunto de rock, o Quinto Minguante. Até sermos expulsos pelo síndico, ensaiávamos no salão de festas do meu prédio. Definíamos a nossa música como ?rock de protesto progressista?. Os nossos ídolos eram Pink Floyd e Emerson Lake and Palmer. Os meus inimigos mortais eram os meus pais, a ditadura militar e a sociedade de consumo em geral. A banda atingiu o ápice do sucesso com a canção ?Seres Condicionados?. Nos qualificamos em décimo lugar no XI Festival da Canção de Queluz, no Estado do Rio de Janeiro, em 1976.
Uma das nossas brincadeiras prediletas era traduzir o nome dos astros do rock para o português. Por exemplo: chamávamos o Richie Blackmore (guitarrista do Deep Purple) de Ricardinho Mais Preto. O Jean-Luc Ponty de João Olha A Ponte. O Greg Lake (do Emerson Lake and Palmer) de Gregório Lagos. Eu mentia muito. Para botar banca, contava na escola que tinha fumado um baseado com o Celsinho, guitarrista do Made In Brazil, no show do Som Nosso de Cada Dia. Onde anda essa gente? Será que existe um refúgio de velhos roqueiros por aí também?
A música e os cheiros têm esse misterioso poder de nos fazer viajar pelo tempo e pelo espaço com a rapidez da luz. E através do som dos velhos roqueiros me transporto do presente em Camden Town ao passado no bairro do Bom Retiro em São Paulo. O que eu acharia de mim mesmo se aos catorze anos me visse hoje? Será que ia me achar ridículo? Eu era um adolescente perdido e impiedoso. Achava o mundo inteiro ridículo. Meu sonho era botar o pé na estrada, e isso eu fiz. Talvez eu até me achasse um coroa bacana.
Aqui em Camden intuo que tudo tem a ver com tudo em todos os tempos, pois um fluxo vital conecta todos os elementos. E me sinto em casa, entre o banal e o sublime. Por isso, confundindo bife à milanesa com bife ali na mesa, improviso a tradução de um lindo poema da polonesa Wislawa Szymborska:
?Por favor alegria, não se zangue se eu acho que te mereço
Que sejam os meus mortos pacientes com o jeito que a minha memória tem de se dissolver
Peço desculpas ao tempo por todo o mundo que eu não enxerguei a cada segundo
Peço desculpas aos amores passados por achar que o último fosse o primeiro
Perdoem-me, guerras distantes, por trazer flores para casa.
Perdoem-me, feridas abertas, por ficar cutucando com o meu dedo?.
