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O peso do corpo(r)ativismo

The Corporation (www.thecorporation.com) é um documentário canadense de Mark Achbar e Jennifer Abbott, baseado num livro xará, de Joel Bakan. Defende a tese de que a palavra “corporação” descende da palavra “corpo”. E que as corporações são exatamente aquilo que o nome indica. Corpos, organismos, seres. Pessoas.

No universo proposto pelo documentário, a aldeia global prevista por Marshall McLuhan é literalmente um vilarejo, habitado por algumas pessoas jurídicas supranacionais. E essas entidades passam a ter vontade própria. Que transcende a vontade dos microorganismos que a constituem: nós, as pessoas físicas.

E que tipo de vontade tem a corporação? O subtítulo do livro que deu origem ao filme dá uma dica daquilo em que acredita: “Corporação – A Busca Patológica de Lucro e Poder”. Patológica mesmo: com a ajuda do manual de diagnóstico oficial dos psiquiatras americanos, o DSM-IV, o autor tenta traçar um perfil psicológico dos gigantes jurídicos. E vê algumas características. Eles têm um interesse desmedido por si próprios. São amorais. Não têm sentimentos. E, ainda que possam imitar qualidades humanas como empatia, solidariedade, culpa ou altruísmo, eles são na verdade absolutamente desprovidos desses sentimentos.

Somando todas essas características, e seguindo à risca o manual, o diagnóstico é inevitável: a corporação tem a maioria dos sinais e sintomas de um psicopata.

Talvez eu mesmo possa ser diagnosticado com algum tipo de complexo de Poliana, mas apesar de ter gostado muito do filme vejo um exagero nas conclusões que ele traz. Daquele tipo de hipérbole alarmista que desacredita o movimento ambientalista. Se o mundo fosse apenas um ringue para o embate de titãs psicopatas, já não teria sobrado corpo sobre corpo. Acredito, ou quero acreditar, que as pessoas jurídicas têm um instinto de sobrevivência semelhante ao das pessoas físicas.

Por outro lado, é possível que estejamos lidando com alguma psicopatia de tendência suicida. Nem a própria Poliana, nem mesmo a Hebe Camargo haverão de negar que todos os dados objetivos, aqueles mesmos números frios que as corporações adoram, indicam que, se não houver uma mudança drástica de caminho, a autodestruição será o fim desse caminho.
 
Pílulas de ansiedade
Coloquemos, por exemplo, aqui no nosso humilde divãzinho, justamente o grupo de corporações que se dispõe a cuidar dos nossos corpos: a indústria farmacêutica. Há uma onda crescente e benigna de questionamento sobre seu papel na sociedade. Entre as principais acusações estão o uso de cobaias humanas para testes, o estímulo à over vacinação de bebês e à over medicação de adultos.

Mês passado, o site PloS Medicine (medicine.plosjournals.org) lançou um ataque aberto acusando as Big Pharma de fabricarem diagnósticos, sobretudo mentais, como o déficit de atenção e a síndrome bipolar mirim. Acusou também, com muita propriedade, a nós da indústria da informação e entretenimento que, além de cúmplices na medicalização da vida, estamos entre os maiores produtores de ansiedade.

Infelizmente o site esquece de acusar uma parte considerável dos médicos, que hoje está amalgamada à corporação. Aqueles que não querem perder a vaga da próxima conferência no Caribe. Aqueles sempre de olho na verba do estudo que vai render uma promoção acadêmica. Aqueles que colocam a arrogância medicamentosa e o corporativismo político bem acima da atenção básica ao paciente.

Infelizmente não são poucos os que têm essa postura. E atrás dela, de maneira direta ou indireta, está, via de regra, a indústria farmacêutica. Só de lobby legal nos EUA, as Big Pharma gastam mais de 700 milhões de dólares por ano. É um número que levanta suspeita, por ser o maior entre todas as indústrias, inclusive a de armamentos. Para que um negócio que só quer o bem de nossos corpos precisa de todo esse lobby?

É sintomático que, num mundo metido numa espiral de auto-intoxicação física e metafísica, boa parte dela venha da própria medicina. A indústria médica é fundamental. Produz mais bem do que mal. Mas não é sagrada. Uma visão crítica de nossa parte pode ser beneficial ao corpo dela, para que ela seja ainda mais beneficial aos nossos.

Imagem: Ron Mueck Big man / Foto: Mike Bruce, Gate Studios, London.

*Carlos Nader, 41, tem o corpo em ordem. Seu e-mail é: carlos_nader@hotmail.com

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