por Arthur Guimarães
Trip #185

Encaramos o mais tradicional puteiro vertical de São Paulo, onde o sexo ainda é barato

Encaramos de peito aberto o mais tradicional puteiro vertical de São Paulo. No prédio que fica no número 69 da rua dos Andradas, a revitalização do centro passou longe, mas o sexo é barato e abundante

 

O zunzunzum lembra um mercado de peixe. São dezenas de variedades, expostas e negociadas abertamente, no grito. Os clientes são famintos. Elas, baratas e prontas para consumo. Descrevê-las assim pode parecer preconceito, mas não é. São elas que erguem a cabeça e dizem: são putas, e putas do mais tradicional bordel vertical do centrão de São Paulo, o 69, instalado há mais de 40 anos em um prédio inteiro de nove andares na rua dos Andradas, no sugestivo número 69, na Luz. Esse “biscate proud”, espécie de orgulho do meretrício, é forte entre as profissionais. Os frequentadores são motoboys, serventes, balconistas, porteiros, office boys, faxineiros e outras classes de trabalhadores da região.

 

As meninas não toleram brincadeira, são um pouco agressivas e, a quem desista do pacote do prazer, chamam de bicha na cara dura. São raparigas sem vergonha do ofício. Quando tentou confirmar o horário de funcionamento em um dos números registrados na lista telefônica, por exemplo, este repórter ouviu sem rodeios. “Horário? Sou prostituta, filho. Não porteiro!” E desligou na cara.

O sistema que rege a casa é igualmente único. Na entrada, há um pequeno balcão de madeira, que funciona como uma chapelaria. Se deixar alguma sacola ou pasta, recebe um pedaço de madeira com um número. Não há revista nem controle. Mais em frente, chega-se ao elevador, figura central no funcionamento do 69. Lentamente, mas lentamente mesmo, o painel vai mostrando a cabine descendo: 3, 2, 1...

Quando a porta abre, a ascensorista educadamente autoriza quatro cavalheiros a entrar. “O escritório de advocacia é lá no nono?”, brinca um. “Não, lá é a primeira vara”, agita outro. “As advogadas ficam lá em cima, no andar em cima da igreja”, emenda a própria comandante da viagem, que atende por “Naja” e está há 40 anos no mesmo papel. Tempos atrás, ela ainda vendia camisinhas, balas e isqueiros. Quando estivemos no 69 agora em janeiro, porém, em sua mesinha portátil havia apenas uma caixa que recebia gorjetas dos presentes. Após alguns instantes, todos chegam aonde efetivamente começa a brincadeira. “É só descer a escada e ir encontrando as garotas”, simplifica Naja.

No nono e último andar, começa a escada de serviço que leva às profissionais. Imediatamente, braços sorrateiros agarram os convidados. Ao olhar para trás, o repórter encontra uma senhora, bem acima do peso, sem boa parte dos dentes, trancinhas amarradas com um elástico, de calcinha branca, mostrando tudo o que os comercias de cosméticos tentam esconder. “Vamo fazê neném?”, sussurra para mim, dando uma piscadela.

Celulite, banha e banguela
Funciona assim: você vai descendo, elas vão te agarrando e te assediando enquanto você tenta seguir em frente. O coro que compõe o zunzunzum dos corredores vibra no tom do “vamo?”. A convocação é repetida sem parar, quase sempre acompanhada de uma mão esperta e uma olhadinha marota para os apartamentos, cubículos de fórmica em que cabe uma cama. Se alguém questiona o que está incluso no convite, outra frase está na boca de todas: “R$ 20, chupetinha e posições”.

O menu é rico. São morenas, loiras, negras, brancas, índias, magras, gordas, idosas e lolitas. O que mais se vê são celulite, banha, pelos indevidos, cabelos engordurados, banguelas e tatuagens de cadeia.

Se ficam devendo na gostosura, as prostitutas dão um show de ironia. A um que tentava pechinchar o preço do anal, a acidez foi na lata: “Já falei que é R$ 100. Cinquenta não dá: dói mais, né, gato?”. Ou ao outro que questionava se o programa contemplava todos os itens necessários: “Sim, sou completinha. Olha só: tenho nariz, orelha e olhos. Vamo?”.

 

Elas também fazem de palhaço quem fica só olhando, sem comprar a mercadoria. “Lá vem o Jesus novamente”, brincavam, tirando onda da barba do repórter. Quando tentava fazer qualquer pergunta alheia à putaria, como saber quem é o responsável pelo prédio, elas desconversavam: “Aqui não é lugar para fazer pesquisa, lindinho. Vai descendo, vai.”

 

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