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O nome da dor

A Debi, minha mulher, estava grávida e na semana passada sofreu um aborto natural. Enquanto o feto crescia no ventre dela, ele passava também a existir no meu afeto e na minha fantasia. Já estava muito apaixonado pela criança antes mesmo de conhecê-la. Será isso amor incondicional?
É muito difícil descrever o que sinto a respeito de um filho ou uma filha que morreu antes de nascer. Sinto dor, uma dor indefinida, sem nome e sem rosto como a criança que não nasceu. Minha mulher está sofrendo essa perda muito mais do que eu. Pra ela é uma perda tangível, até mesmo na dor física. Ela entende melhor quando e por que chora. Pra mim tem só um puta frio e um som incompreensível que ecoa no escuro.

Muito além do Oriente
O que sinto é muito interno, muito íntimo e só. Resisti muito até me convencer de que queria falar disso aqui nesta coluna. Não queria banalizar a dor gritando em praça pública. Tentei me refugiar escrevendo sobre o Oriente Médio. A calamidade que aflige dois povos inteiros é com certeza muito mais importante do que o meu drama pessoal. Mas não consegui passar do primeiro parágrafo. Moro longe da minha terra e da minha língua. Todos os meses uso esta página para me encontrar com o Brasil. Nas palavras escritas espero encontrar e transmitir um pouco de luz. Kafka dizia que escrever é como rezar.
Um dos mais fascinantes paradoxos da vida é que é nas profundezas da nossa intimidade que nós nos encontramos com a humanidade. Porque por dentro, por trás da máscara dos nossos rostos, somos praticamente todos idênticos. A cor da nossa pele, nossas neuroses específicas, nossas culturas e todo o pouco que nos distingue um dos outros são nada se comparados com tudo o que de humano temos em comum. Palestinos, israelenses ou corinthianos, hoje, ontem e amanhã também sentiram ou sentirão a dor de perdas surdas e sem cor. Somos sós – mas não somos sós.

Arbítrio e fatalidade
No passado, duas ex-namoradas minhas abortaram. Foram experiências dolorosas, escolhas que tive de aceitar, mas que não teria feito – não por moralismo ou religião – mas porque acho que a vida vale muito a pena. Nunca deixei de imaginar como teriam sido esses filhos ou filhas, que tipo de gente eles ou elas seriam.
Trinta por cento das mulheres têm aborto natural durante os primeiros três meses de gravidez. E os médicos ficam babando. Não entendem quase nada do que acontece. São pobres meninos vestidos de branco brincando de cabra-cega. A explicação científica do que aconteceu é a seguinte: o feto provavelmente tinha alguma anomalia genética. Um mecanismo de seleção natural entra em ação e elimina o feto. Mas essa explicação é muito superficial. Na cosmovisão dos índios Navajos da América do Norte, o universo está apoiado sobre uma tartaruga. Essa tartaruga primordial então seria a base e a explicação da existência de tudo. Mas essa mesma cosmovisão indaga: e a tartaruga, sobre o que ela se apóia? Sobre outra tartaruga? E esta outra tartaruga, sobre o que se apóia? Sobre uma esfiha do Habib’s?

Tartaruga chapada
As camadas de mistério são infinitas e nós homens somos muito burros. A ciência, essa nossa grandiosa capacidade de compreensão, não é nada mais do que uma tartaruga chapada. Tudo isso me leva para os braços de Deus. Mas não um desses deuses capengas das religiões, em nome dos quais os homens se matam. Me sinto no colo aconchegante do Deus da vida, Deus do universo em geral. Para esse Deus, basta viver para que os destinos se realizem, não adianta rezar ou construir templos. É para ele que eu um dia quero oferecer meu filho.

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