O nome da coisa

Por que ainda é tão difícil falar "vagina"?

por Teté Martinho em

Trip / Vagina

Por que representamos o órgão sexual feminino por meio de metáforas castas e infantis? Séries como Girls fizeram crescer o uso da palavra na TV? O que mudou nos últimos anos? Trip investiva o que há por trás desse interdito

Crédito: Peter Kaaden

O termo é médico e, portanto, não apenas desprovido de qualquer traço de sensualidade, mas também
pudicamente incompleto, já que designa apenas parte de uma estrutura anatômica cheia de pormenores, e originalmente inespecífica: antes de virar nome do canal que liga a vulva ao colo do útero, designava bainha, estojo, envoltório. Pois bem: apesar de tão decente e limpinha, “vagina” não é palavra que se diga. Não em público. 

Velho conhecido das feministas, que sempre vociferaram contra ele, o interdito é tão arraigado que tende a passar batido. Mas qual é a dificuldade de falar “vagina”? A pergunta dá título a um post publicado pela geneticista Lygia da Veiga Pereira no blog As meninas, em junho deste ano. Ela participava de um congresso internacional sobre células-tronco no Canadá quando um pesquisador norte-americano, após discorrer sobre uretras, veias e bexigas construídas em laboratório, embatucou diante do slide que mostrava uma vagina. “Ele ignorou o nome, e só se referiu a ela como ‘o órgão’”, conta. “E olha que era uma vagina de coelha.”

Foi o contraste entre o avançado da pesquisa e o antiquado do pudor que chamou a atenção da cientista. “Em pleno 2014, um médico e cientista brilhante que consegue construir vaginas no laboratório, e, com isso, reconstruir a vida de mulheres mutiladas, não consegue falar ‘vagina’?” No post, ela conta que, adolescente, nem ela nem as amigas sabiam como se referir ao próprio sexo; e compartilha os resultados alarmantes de uma googlada básica sobre o assunto. “Nos EUA, em 2007, três alunos do ensino médio foram suspensos por terem falado ‘vagina’ no contexto de uma discussão sobre a peça Monólogos da vagina. [...] Em 2012, uma deputada norte-americana foi expulsa do plenário por ter falado ‘vagina’ durante discussão de um projeto de lei sobre aborto, o que ficou conhecido como Vaginagate.”

  - Crédito: Peter Kaaden

Sobre o caso da deputada estadual democrata Lisa Brown, dá para argumentar que a palavra “vagina” era parte de uma fala ferina (e de gosto sofrível). “Senhor orador, sinto-me lisonjeada que vocês estejam tão interessados na minha vagina, mas [...]”, e continuava Brown, dirigindo-se aos deputados republicanos com quem discutia o projeto. Mas, se aqui resta dúvida de que foi o nome do sexo feminino o real estopim do drama, o caso de Monólogos da vagina é emblemático: a conhecida peça da nova-iorquina Eve Ensler por pouco não se chamou Monólogos da… (assim, com reticências). “Todo mundo dizia que eu tinha que mudar o título, ou a peça não emplacaria”, contou a autora ao Los Angeles Times em 2012.

“É na linguagem que o peso dos interditos se revela mais facilmente. [...] Culpabilizar o prazer é um dos mais formidáveis instrumentos de dominação sobre cada um”

O jornal lembra que, quando Monólogos foi lançada, em 1996, o público tinha dificuldade de enunciar seu título ao comprar ingressos na bilheteria; motoristas reclamaram de ter que lê-lo em outdoors; e jornalistas se recusavam a dizê-lo no rádio e na TV. Olhando em retrospecto, é óbvio que enfrentar tamanho tabu só contribuiu para o enorme sucesso da peça, traduzida para 50 idiomas e encenada em mais de 150 países. “Era uma escolha política e artística ver uma peça chamada Monólogos da vagina”, diz Ensler na reportagem. “Já que ‘vagina’ era algo mais perigoso do que mísseis Scud ou plutônio.”

Tanto mais no âmbito da grande mídia, diria a cientista política australiana Lauren Rosewarn no livro American Taboo: forbidden words, unspoken rules, and secret morality of popular culture (Tabu Americano: palavras proibidas, regras não ditas e a moralidade secreta da cultura popular). Ao falar dos eufemismos que substituem algumas palavras no mundo da publicidade, ela conta que, em 2010, o fabricante de absorventes Kotex resolveu criar um comercial moderno, substituindo coisas como “proteção feminina” por linguagem direta, inclusive a palavra “vagina”. Três redes de TV recusaram o anúncio, que teve de ser refilmado com o eufemismo “lá embaixo”. Dois anos mais tarde, a Apple colocaria o livro Vagina: a new biography, da autora feminista Naomi Wolf, à venda no iTunes com a palavra-chave censurada. 

Se os exemplos de interdição à palavra “vagina” são inumeráveis, raras são as tentativas de explicar o fenômeno que não envolvam as palavras “medo” e “poder”. “Às vezes, minha impressão é de que a sociedade tem medo das mulheres e do enorme poder da maternidade”, diz Lygia da Veiga. “A vagina vira tabu porque é daí que vem a vida. E o fato de ela ser de fato interna, escondida, misteriosa – até para a própria mulher – se soma ao tabu.”

A arquifeminista australiana Germaine Greer concordaria. Em depoimento à BBC, ela diz que cunt, designação chula do sexo feminino e “única palavra da língua inglesa que ainda consegue chocar alguém”, é uma herança patriarcal que envolve a ideia da vulva como algo “assustador e imundo demais para virar tópico de debate público”. Nos anos 1970, ela conta, as feministas tentaram resgatar a palavra do limbo, estimulando as mulheres a usá-la para afirmar seu prazer e seu poder. “Não deu certo”, conclui. “O que significa que a vagina mantém seu poder.” Greer acha que as mulheres têm culpa no cartório dos interditos. “Temos dificuldade de adotar qualquer termo que designe nossa genitália, o que ajuda a estigmatizar a vagina e a sexualidade feminina.”

“É na linguagem que o peso dos interditos se revela mais facilmente”, disse, em entrevista à Folha de
S.Paulo, o crítico de arte Jorge Coli, sobre um episódio de censura que o envolveu há dois anos. Em meio à sua conferência “O sexo não é mais o que era”, que o site da Academia Brasileira de Letras transmitia on-line, Coli exibiu a tela A origem do mundo (1866), de Gustave Courbet, e usou (não sem antes pedir licença) a palavra “boceta”. Súbito, a transmissão foi interrompida. Instado a comentar o episódio, o crítico dizia:
“Tenho para mim que a vulva atrai e assusta por causa do mistério que ela encerra. Mistério do prazer
feminino, indecifrável para os homens, mistério no fato de que suas manifestações exteriores não são visíveis, como a ereção o é.

“Em 2012, um estudo do Parents Television Council Americano descobriu que, interditada ou não, a palavra 'vagina'está sendo usada oito vezes mais do que há uma década em séries de TV”

Mistério da penetração que perturba pelo desconhecido, paraíso inquietante”. E concluía: “Culpabilizar o prazer é um dos mais formidáveis instrumentos de dominação sobre cada um [...]. Graças à culpa imensa,
a vagina cria dentes, a maçã é venenosa e o paraíso mantém seus portões fechados”. 

Não é por acaso que o mito da “vagina dentada”, recorrente entre as culturas mais diversas, aparece aqui. No Japão, a versão fatal do sexo feminino, capaz de castrar o homem que a penetra, está na origem do Kanamara Matsuri, ou Festival do Falo de Aço, evento anual que enche as ruas de Kawasaki com pintos: em forma de doces, fantasias e enormes ícones de madeira, eles são adorados como símbolo de fertilidade e proteção. Por trás de tudo, a lenda de uma jovem que teve a vagina invadida por um demônio de dentes afiados e, depois de castrar dois maridos, encomenda a um ferreiro o tal Falo de Aço, para com ele dar cabo do monstro.

  - Crédito: Peter Kaaden

Por tudo isso, e contra a nomeação da vulva, o médico psicanalista Francisco Daudt acredita que pesa “sua presença não afirmativa, que Freud chamou de ‘ausência de pênis’” e nossa moral “vitoriana”. “Mas atribuir à sociedade patriarcal a interdição de ter sua genitália nomeada é um exagero oriundo da vitimização coitadista”, diz. “Como explicar que depois de tantas conquistas feministas as mulheres continuem a não ter um nome razoável para seus genitais?”

Talvez elas já estejam fazendo sua parte para mudar isso. Em 2012, um estudo do Parents Television
Council americano descobriu que, interditada ou não, a palavra “vagina” está sendo usada oito vezes mais do que há uma década na TV. Séries criadas por mulheres, como 2 Broke Girls, Grey’s AnatomyGirls, são famosas por fazê-lo. “Cinquenta por cento das pessoas deste país têm vaginas”, disse Shonda Rhimes, produtora executiva de Grey’s Anatomy, ao LA Times. “Ter medo de falar delas ou chamá-las pelo nome certo é realmente bobo.”

 

BOCETA


da entrada à entranha
dessa eterna
morada
da morte diária
molhada
de mim
desde dentro
o tempo
acaba


entre lábio e lábio
de mucosa rósea
que abro
e me abra
ça a cabe
ça o tronco
o membro
acaba
o tempo


por Arnaldo Antunes


*O poema bocetal acima, do músico e poeta
Arnaldo Antunes, foi publicado originalmente no
caderno “Mais!” da Folha de S.Paulo, em 1997, e depois
incluído no livro 2 ou mais corpos no mesmo espaço,
que saiu pela editora Perspectiva, no mesmo ano

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