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O milagre da fotografia

Foto Fernando Lazslo

Então é assim. Estava escrito em um muro, aqui em São Paulo: “Eu queria ser o que era quando queria ser o que sou agora”. Deu para ler a frase, pelo canto do olho sempre alerta, mesmo com o carro em movimento. Tinha sido desenhada com uma caligrafia pausada em uma parede branca e imaculada. Confesso que normalmente acho os grafites muito sem graça mas esse, desde que o li, não me sai da cabeça.

Então, outro dia, ao acordar me lembrei de um poema de um escritor espanhol que, em uma tradução mais ou menos caseira, diz:

“Caminhante, são tuas pegadas
o caminho e nada mais;
Caminhante, não existe o caminho
se faz o caminho ao andar.
Ao andar se faz o caminho,
e ao volver a vista atrás
se vê a senda que nunca
se há de volver a pisar”.

O nome do poeta é Antonio Machado. Morreu, de desgosto, como só um poeta de verdade pode fazê-lo, em Colliure, uma cidade francesa na fronteira com a Espanha, em 1939, pouco antes de terminar a Guerra Civil Espanhola. Mas isso é uma outra história.

Lembro, então, do grafiteiro que, na rua, quer subverter o poema de Machado. Que quer refazer o caminho, que não dá para ser refeito, em busca de uma outra oportunidade. Ou, talvez, quem sabe, ele queira poder responder com outras alternativas aos problemas e às situações que viveu. Mas isso, pelas regras da vida, seria roubar no jogo.

Penso na quantidade de gente que quer reverter a sua vida e voltar para trás à procura de um tempo perdido que na memória parece melhor. Penso, também, que a fotografia é uma maneira de guardar esse passado para sempre. Como um documento, daqueles registrados em cartório, que nos ajuda a colocar em perspectiva o que a memória insiste em deixar de lado. Ao olhar uma foto dá para lembrar, e saber, de tudo o que aconteceu no espaço de tempo que antecedeu, ou seguiu, esse instantâneo. Porque apesar das aparências, e do slow motion de Matrix, o tempo não pára.

Mas penso, antes de sair da cama para mais um dia de trabalho, que acima de tudo o que vale mesmo a pena é viver uma vida sem ter de se arrepender depois do que foi feito ou dito. Porque na hora de fazer o balanço, aí então, meu amigo, é tarde demais.

*J. R. Duran, 53, sempre dominou as imagens, mas agora está cada vez mais afinado nas idéias. Seu e-mail é: studio@jrduran.com.br

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