Ele jamais havia reparado naquele detalhe. O orifício, por dentro, era revestido por ranhuras circulares. Aquele detalhe pouco importante da anatomia íntima fez disparar um processo sobre o qual já ouvia falar mas que não conhecia com detalhes. Aliás, teve a sensação clara de que não conhecia nada em profundidade. Lembrou-se de seus tempos de pequeno. Dos ciúmes que sentiu quando nasceu o primeiro irmãozinho. De como se sentiu ainda menor quando veio o segundo. Passou um fast forward para a adolescência e o espelho com o corpo rechonchudo e sem formas definidas se desenhou pesado como um soco no estômago. As não-namoradas, os não-amigos, a não-família, o filme todo passou como uma produção C, fadada a acumular poeira numa produtora da boca do lixo. Não se preocupou em reagir. Primeiro porque podia ver o dedo por trás do cano do revólver, já fazendo alguma pressão no gatilho, segundo porque correria o risco de estar se privando de um dos poucos momentos de paz de espírito e lucidez que tinha a oportunidade de experimentar nas últimas três ou quatro décadas. Era a sensação de relaxamento e quase bem estar que se tem quando o campo de atuação termina, quando nada mais pode ser feito a não ser deixar o mundo trabalhar.
Pensou nos filhos. Melhor ainda, pensou em como não pensava nos filhos.
Lembrou-se da primeira vez em que se viu diante de uma decisão que prejudicaria direta ou indiretamente algumas pessoas mas que renderia uma boa soma de dinheiro. Pensou em como sentia a cada maço de dólares que tocava, uma sensação agradável de revanche, de vingança mesmo, contra Deus que o fez feio, desengonçado e amargo, contra os outros garotos que lhe deixavam de lado na infância e que hoje se viam obrigados a implorar de joelhos por favores, empréstimos ou empregos, contra as mulheres que o rejeitaram, os pais que não lhe deram o amor que merecia. Pensou no pai que havia morrido há pouco e com quem jamais havia conversado de verdade. Na mulher, com quem esteve casado durante décadas e nem sabia ao certo se conhecia. Na atual namorada, ali ao seu lado, e sobre todo o sentimento de insegurança que batia, quando a via tirar a roupa num ritual meio automático como quem liquida uma fatura. Pensou na solidão que sentiu na cela em que esteve preso onde televisão, tapetes e uma garrafa térmica eram as únicas testemunhas de sua existência. Pensou nas pessoas que sofreram por sua causa. Centenas, milhares, milhões. Lembrou-se da única vez em que entrou no mar à noite e de como era curiosa aquela sensação de ‘não poder’ , de fragilidade, de medo. Lembrou de como afastava o medo das estrelas, da mulher mais jovem, dos homens, pensando no dinheiro que tinha guardado. Pensou em quantas vezes aqueles números enormes tinham servido de consolo à tristeza. De como pensava que não havia ombro amigo, seio de mulher, remédio ou psicanálise mais reconfortante que um punhado de dígitos na SUÍSSA. Pensou no carro escuro que vira passar lentamente na rua de sua casa várias vezes e nas primeiras letras da placa que, por coincidirem com as iniciais de sua cidade, ficaram gravadas na memória. MAC.
E sentiu pela primeira vez, um sopro de certeza, de determinação, batendo sobre sua cabeça eternamente insegura. Queria ir, queria partir, não podia mais suportar seu corpo, sua vida, a mulher que tinha e não tinha, as pessoas que o rodeavam, a sensação de abandono, de pobreza de espírito. Queria abrir a tampa da máquina, sacar aquele filme gasto em preto e branco e romper com os dentes, uma caixinha nova em folha com um filme novo, zerado, em cores. Queria trocar de papel. Pediu com todas as forças. Ouviu o estampido e, finalmente, sentiu cessar em definitivo toda a tensão.