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O lado charque da lua

Na foto, os pais da criatura, Luiz Félix e Fabrício Jomar

POR CIRILO DIAS

Mexer em um disco clássico da música é um sacrilégio tão grave quanto atirar pedra na cruz, mas de tempos em tempos, sempre aparece um audacioso capaz de encarar tamanha proeza. Quando o objeto em questão é o Dark Side of The Moon, do Pink Floyd, ou o sujeito se atreve a reconstruir a obra-prima, a exemplo do Easy Star All Stars, que lançou o Dub Side of The Moon, ou então ele corre o sério risco de ganhar um banquinho, um violão e virar pop star de bairro e de luaus Brasil afora. Desta vez, Luiz Félix, guitarrista da banda paraense La Pupuña, se encheu de coragem, chamou o amigo Fabrício Jomar e resolveu colocar um tempero paraense no clássico pinkfloydiano. Charque Side of The Moon reúne artistas paraenses como Mestre Vieira (criador da guitarrada), Gabi Amarantos (do grupo Tecnoshow) e Sammliz (do grupo de metal Madame Saatã). Félix, o pai dessa obra-prima, explicou por telefone à Trip o motivo dessa façanha, uma mistura que, dependendo do paladar musical do ouvinte, pode causar sensações únicas ou então embrulhar o estômago dos mais sensíveis.

Como surgiu a idéia de fazer uma releitura do Dark Side of The Moon com guitarrada e tecnobrega?
Na verdade a gente não teve uma lógica do tipo “vamos fazer algo assim e tal”. Eu sempre fui fã do Pink Floyd, tocava as músicas, só que as imaginava de outro jeito, de uma maneira mais nossa e tal. Aí resolvi pegar essa idéia e gravar em ritmos paraenses, mas até então eu não sabia qual ritmo iria usar. Como estava com essas idéias, anotei algumas coisas básicas que ficariam interessantes. Por exemplo, em “Time”, nós usamos os sinos da Basílica de Nazaré [Belém/PA]. Fui anotando esses detalhes, que seriam importantes na hora de gravar, só que precisaria ter um estúdio de gravação. Foi quando encontrei o Fabrício Jomar, que produziu o disco junto comigo. Ficamos um bom tempo sem nos falar por causa de uma treta, que por sinal o motivo foi um CD do Pink Floyd, e, quando voltamos a nos falar, naquela empolgação, dei a idéia e ele topou na hora. Ele também era fã de Pink Floyd, músico, estava com um estúdio na mão, e aí sentamos, organizamos e começamos a gravar. Fomos comparando os andamentos das músicas com alguns estilos regionais daqui, nas mais lentas usamos o marajoara, nas mais rápidas o merengue, em outras carimbó e nas mais dançantes usamos o tecnobrega. Foi aí que começamos a pensar na lógica, o que combinaria, até porque os ritmos carimbó, guitarrada são coisas que nasceram nos anos 70, então foi fácil timbrar…

E qual foi a parte mais difícil de todo esse processo?
A gente não sabia no que ia dar, então primeiro pensamos em uma participação apenas, pro Pio Lobato fazer. Depois pensamos: “Por que não uma participação especial em cada música?”. Assim o projeto se tornaria uma homenagem e uma divulgação da cena musical paraense. O complicado foi agendar a galera, até porque fizemos tudo com custo praticamente zero. O que gastamos foi com táxi, almoço pra galera e cerveja. Foi tudo feito na bacanagem mesmo.

E teve participação de cantoras daí do Pará, como a Sammliz (Madame Saatã), a Gabi do Tecnoshow…
Sim, a Sammliz canta em “Money”, e a Gabi em “The Great Gig in the Sky”. Como a música já é sensualíssima, nós refizemos todo o piano igualzinho e botamos o estilo zouk, original da Guiana Francesa, mas muito tocado aqui, e um dos ritmos mais sensuais também. Depois encaixamos a batida, e a Gabi interpretou do jeito dela. O criador da guitarrada, Mestre Vieira, fez toda a guitarra em “Money”. Ele veio de barco da cidade dele, o levamos pro estúdio, e ele gravou com o maior prazer, sem fazer cara feia, sem pressa…

Clique e ouça “Money” com Sammliz (Madame Saatã)


E está rolando Pink Floyd tecnobrega nas aparelhagens daí?
Rapaz, são tantas aparelhagens que você perde a conta. Mas não duvido que esteja tocando, é que faz tanto tempo que não vou a uma…

E a versão brasileira do Dark Side of the Moon? Sincroniza com o filme Mágico de Oz ou com Os Trapalhões e o Mágico de Oroz?
[Risos] Se rolar isso, vai ser bacana. Mas tem um lance interessante: como usamos barulhos de animais no começo de “Money”, uma reportagem que saiu por aqui disse que a música tinha a ver com o tráfico de animais, dinheiro e tal, aí a gente deixa falar né? Já estão criando a lenda em cima, mas não tivemos nenhuma intenção disso, tentamos sincronizar com o disco, mas não rolou, a única que teve o mesmo andamento foi “Time”.

E, por mais que esse projeto tenha sido uma brincadeira que deu certo, há uma intenção de excursionar com o disco?
Com certeza, porque isso mostra a cena paraense. Não foi apenas uma coisa que fiz por fazer, agora a galera está gostando da idéia, é questão de tempo para agendar todo mundo e levar todos que participaram, então demora um pouco.

E você pretende lançar o disco?
Nosso produtor foi pra Londres e mostrou o trabalho pra uma galera. Alguns se interessaram, já queriam mandar os papéis para assinar, mas, se já é tão difícil fechar contrato em português, imagina em inglês, então a gente preferiu deixar rolar. Estamos atrás de uma licença para lançar umas 5 mil, 10 mil cópias, talvez role…

Então já existe um processo para lançar oficialmente?
Me falaram que existia, talvez não exista. Não tem nada que impeça de alguém se interessar e lançar. Se alguém quiser comprar o projeto e fazer alguma coisa, e ganhar algum dinheiro em cima disso, e sobrar algum pra gente também…

E como as músicas foram parar na internet?
Fomos nós mesmos que vazamos o disco, não podia ficar com isso preso. Como não podemos vender, liberamos geral.

E qual foi a reação das pessoas?
Tem muita gente falando bem e mal. Teve um cara daqui de Belém que disse que não tínhamos mais o que fazer, que deveriam nos amarrar numa avenida da cidade e nos chicotear. Eu dou risada. Também tem uma galera que elogia, fala da capa…

A mulher tampando o “charque” com o triângulo, né?
Sim, aqui chamamos a parte nobre da mulher de charque. É o lado sensual da Lua, o lado charque, então fizemos um disco sensual. A intenção não foi ser apelativo, mesmo sabendo que muita gente iria achar isso. Aí fizemos a capa pra combinar com o nome do disco, que é isso, então não tem como colocar o charque literal, que é a carne-seca.

E nos shows do La Pupuña? Vocês tocam músicas do Charque Side?
A gente evita, para não misturar as coisas. A galera pede, então acaba saindo uma, dependendo do show e do clima, às vezes mandamos umas duas. Mesmo porque é um projeto meu e do Fabrício [baixista do La Pupuña].

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