Nos últimos dias, dois amigos me procuraram para falar sobre projetos editoriais. Ambos queriam conversar sobre revista e em comum tinham a área em que pretendem atuar, com esporte, saúde e bem-estar físico, emocional. Para um deles, que eu não via há anos e não sabia bem em que estava atuando, de cara falei da importância da identidade das pessoas envolvidas na revista com o assunto. Conversamos sobre o mercado, publicidade, distribuição, custos industriais, capa, conteúdo e no final ele me disse que o que mais o deixou motivado foi eu ter destacado a verdade que deveria nortear o conteúdo editorial. E que essa identificação estava movendo suas ações e aproximando as pessoas que podem viabilizar a idéia. Para o outro amigo, o do outro projeto, ficamos mais na parte técnica, já que, no caso dele, o DNA está tatuado na testa, no coração.
Lembro com riqueza de detalhes a primeira revista de surfe que comprei. Uma Surfer Photo Annual, com Owl Chapmam num tubo muito azul na capa. As seções – divididas por regiões, Austrália, África do Sul, costa leste e oeste dos EUA, Havaí, e nomes como Mike Purpus, Larry Bertleman, Shaun Thomson, Rory Russell – chapavam a cada virada de página. Estáticas, as imagens se transformavam em longa-metragens em minha cabeça, fotos que, com o olhar crítico adquirido com os anos, hoje chamariam mais a atenção pela capacidade sonhadora de então.
Pouco tempo depois saía a primeira revista brasileira de surfe, a Brasil Surf, cuja coleção completa, exceto a ano 1 nº 6 (se alguém tiver e quiser negociar, estamos aí), guardo com todo o cuidado. A primeira edição, março/abril de 1975, trazia na capa uma foto de dentro d´água, no Arpoador, e o surfista não foi identificado, nem poderia tal a qualidade da foto. Só a capa, o anúncio da Man Surf na contracapa e página dupla central eram coloridas, as 28 páginas restantes eram pb, em quatro delas foi possível combinar um cyan deixando tudo azul. A extinta Pan Am e o Esporte Espetacular, da Globo, estavam entre os anunciantes e a lista de convidados do primeiro campeonato de Saquarema causava furor aqui em São Paulo, pois era o único lugar da revista (editada no Rio) que fazia menção ao Estado.
Foram 19 edições produzidas em pouco mais de três anos de vida. Nem os anúncios da Coca-Cola nas últimas edições livraram o título da descontinuidade. Talvez porque o ideal que moveu seus fundadores já não fosse o mesmo, talvez porque a experiência profissional os tenha levado a novas aspirações. O editor, Alberto Pecegueiro, por exemplo, seguiu para uma grande editora e hoje preside a Globosat.
Comecei a trabalhar com revista há quase duas décadas, vendendo publicidade para a Visual Esportivo. Havia me formado e fui morar em Santos. Como muita gente na época, queria estar na praia, o mais próximo possível do esporte. Precisava ganhar dinheiro e a possibilidade de conseguir isso através do surfe era, então, quase uma utopia. A indústria do surfe se resumia a meia dúzia de idealistas.
Quatro anos mais tarde estava ajudando a fundar a Trip Editora que está completando 15 anos. Já não posso estar na praia com a mesma freqüência de outros tempos, mas o prazer de trabalhar naquilo em que acredito compensa amplamente. Posso acrescentar para os dois amigos que, mesmo que as revistas que pretendem editar não os deixem ricos, elas serão um sucesso.
NOTAS
SUPER SURF
A prova decisiva do Brasileiro, disputada em Imbituba, SC, foi interrompida na terça-feira. Na categoria masculina, entre os quatro com chances de chegar ao título, apenas Dunga Neto passou direto para a terceira fase. Uma frente fria entrou ontem e as condições devem melhorar. As mulheres disputam hoje a primeira fase na praia que apresentar as melhores condições.
TRABALHAR NAS FÉRIAS
Termina hoje o prazo de inscrição para os brasileiros interessados em trabalhar nas Olimpíadas de Inverno em Salt Lake City, EUA. É preciso ser universitário, ter de 18 a 28 anos e inglês intermediário. Informações: www.experimento.org.br
PRO JÚNIOR
Até quarta-feira, Bruno Santos era o único surfista brasileiro disputando o Mundial até 20 anos, na Austrália. Seu adversário nas quartas-de-final era Joel Parkinson, e Mike Fanning é quem está batendo os recordes da prova.