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O Homem-Aranha e o Homem-Rato (Romário, Maluf ou canastrões em geral)

O que incomoda no Homem-Aranha é o herói americano. Mas onde estão nossos heróis?

em 21 de setembro de 2005

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O filme é previsível, patriótico e cheio de clichês. E daí? Ainda sim dá para se divertir vendo o Homem-Aranha, o novo blockbuster que chegou ao Brasil sendo exibido em 507 salas de cinema de uma só vez. Só para efeito de comparação, Abril Despedaçado do Walter Salles chegou com 30 cópias. O fato de o filme ser um mega-hit não o desqualifica (pelo menos não deveria). Mas ainda assim saí de saco cheio do cinema com a propaganda pró-EUA.
O herói americano vem vestido de homem-aranha embalado no velho esquema de Cristopher Vogler que criou a ‘jornada do herói’. Para quem não sabe, esse cara inventou um modelo que serve de ferramenta para a história funcionar melhor. E funciona mesmo. É assim: existe o herói no seu ‘mundo ordinário’ que recebe um chamado para a ‘aventura’. Ele recusa o chamado, mas acaba indo mesmo assim para o ‘mundo da aventura’. Nessa aventura ele tem um guru – no filme Guerra nas Estrelas, por exemplo, era o Yoda – depois alguém morre, o herói recebe um elixir, enfrenta o desafio no duelo final e termina o filme. Não ache que o modelo é banal. Estou explicando mal justamente para não estragar o prazer de ir ao cinema. Mas o fato é que ele é amplamente utilizado, de Pulp Fiction a Titanic.
Acontece que o Homem-Aranha teve que ser refilmado por causa do famigerado atentado do dia 11. A seqüência do ‘duelo final’ se passava nas torres gêmeas, mas teve que ser refeita numa ponte. Será coincidência que o americano da vida real foi derrotado no mesmo cenário que o homem-aranha venceria seus inimigos? Ou melhor: no cenário do herói americano do cinema? Imagino que durante essa refilmagem num clima de guerra, eles aproveitaram para rechear o filme com mensagens emblemáticas que são repetidas à exaustão como ‘um grande poder vem acompanhado de uma grande responsabilidade’.
Por que isso encheu tanto o saco? Não sei, mas acho que eles têm o direito de fazer um filme enaltecendo o próprio país. Eu comprei o ingresso do filme porque quis. Então onde estava o problema? Fiquei pensando: onde está meu herói? O Pelé? Não depois dos últimos escândalos. Quem, então?
Quem é o herói do Brasil? A nossa seleção? Hum, acho que não. Outro dia um jornal publicou uma pesquisa atestando que o eleitor de Paulo Maluf (sim, sempre ele) não se importa com a sua corrupção e vota nele mesmo assim. O Brasil fez coro para o Romário voltar à seleção, mesmo ele fazendo o tipo canastrão de gafiera que não tem respeito por nada (lembra quando ele pintou o Zagallo no vaso no banheiro do seu bar?).
Pode parecer que só temos anti-heróis. Só malandros. Mas acho que não. Agora vou ser eu o piegas patriota: acho que temos que descobrir nossos heróis. Afinal, o quem é o nosso homem-aranha?

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