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O GAROTINHO E O MALANDRO P.H.D.

Não sei muito sobre os políticos do Rio de Janeiro, mas conheço um pouco os cariocas e a cidade deles. É que meu primeiro emprego na área de comunicação foi numa revista cuja sede ficava no esôfago de Copacabana. Era uma salinha apertada num edifício comercial cujo térreo era (e é até hoje) forrado de lojinhas de pedras de borboletas e miniaturas do Cristo Redentor. No mezanino, já àquela altura, início dos anos 80, uma academia de ginástica punha no torno os corpos de bronze de ambos os sexos.
Desde então, vou e volto ao Rio com boa freqüência, um pouco menos intensa apenas durante o período de abandono que a cidade e o estado viveram nas mãos de Brizola e outros tipos. A paixão pelo surfe ajudou a aprender e observar mais por dentro todos os milhares de ângulos e facetas da tão cantada personalidade carioca.
No fim, depois de mais de duas décadas de observação, as conclusões que consigo tirar não são muitas e se encontram de frente com o que diz a famosa sabedoria popular. A que vem ao caso aqui, diz respeito à famosa malandragem. Sábado passado a TV Educativa exibiu um filme nacional antigo, da época da Atlântida e da Vera Cruz. Não sei o nome, sei apenas que John Herbert, ainda um garoto com físico de nadador do Clube Pinheiros, vivia um guarda civil apaixonado por uma prostituta daquelas do tempo em que virar bolsinha não era uma simples figura retórica. O filme mostra o Rio no final da década de 50 e, numa cena memorável, Moreira da Silva, como sempre encarnando ele mesmo, canta num cabaré um samba falado, avô do rap.
Desde lá, o mito da malandragem já era cultivado a pão-de-ló, com muito orgulho pelos cariocas. Da voz de Moreira, saía uma frase memorável ‘Malandro que é malandro não reage nem se borra, espera a hora certa para ir à forra’.
No domingo passado, depois de ver a brilhante vitória de Peterson Rosa no mundial de surf na Barra, fui a um restaurante natural (no Rio ainda existem alguns excelentes que não atendem só a geração patchouli vencido). Na mesa ao lado sentou-se uma mãe com seus dois filhos. O menor devia ter uns seis anos e, antes que alguém pudesse detê-lo, voou na direção da árvore do quintal e escalou seus galhos um a um com desenvoltura que faria a molecada dos apartamentos de São Paulo correr chorando em busca do Nintendo mais próximo. O irmão mais velho, ao contrário, ficou na mesa distraído pela chegada de dois amigos da mãe, tipos clássicos representando o machão carioca açaí, jiu-jitsu, marinara.
Do alto de seus nove anos, dasafiava os grandões, tentando enforcá-los com mata-leões, chutando suas canelas e provocando-os com palavras doces como ‘boiola’, ‘mané’, ‘bichona’ e outras delicadezas, no mais puro estilo ‘tem que dar porrada’ que visivelmente enchiam não só a mãe, mas seus dois amigos vítimas das agressões, de orgulho.
Surpreendentemente, do nada, o garoto se dirige aos adultos em tom de reprovação e diz: ‘Tu viu a conversa de malandro do Garotinho?’ – referindo-se à fita gravada divulgada recentemente com conversas do candidato ao Governo do Estado Anthony Garotinho – ‘O cara fala que nem a galera do morro, tu viu?’, insistia o excitado menino. ‘O outro tenta armar uma parada como ele e ele responde – segunda não que segunda eu tô fudido…’.
A reprovação do próprio aprendiz de malandro na mesa do restaurante e o conteúdo da fita a que se refere me levara a refletir sobre duas hipóteses:
A primeira é de que o Rio de Janeiro estará elegendo, se as primeiras pesquisas se confirmarem, um verdadeiro gangster para governador.
A segunda é de que o cara não é tão mau assim, apenas exerce a malandragem em estado bruto e primário vigente no Rio e em breve deverá seguir o curso natural do malandro evolutivo, aprendendo a fingir com um marketeiro baiano, mentindo a torto e a direito e enganando até a própria sombra. Aí estará pronto para exercer seu governo até num estado maior como São Paulo, que, pelo que também mostram as pesquisas, parece desgraçadamente preferir candidato com o perfil descrito, o malandro pós-graduado.

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