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O ERRO DE JOÃO GILBERTO

Vi e li quase tudo o que se divulgou e escreveu sobre a atitude de João Gilberto no show da semana passada. Em geral, nada de conclusivo ou realmente novo foi dito. Houve críticas à deselegância e chatice crônica do artista, a um certo histerismo na defesa de Caetano Veloso a seu mestre. Houve elogios à postura de ‘épater les bourgeois’ do cantor, à sua independência do mundo do capital, à sua recusa diante dos maus tratos à arte em benefício de coquetéis e salamaleques.
Quase uma semana depois, o episódio ainda repercute. Domingo passado por exemplo, durante o brilhante show de Luis Melodia reinaugurando o TBC em São Paulo, Itamar Assunção foi chamado ao palco para cantarolar uma música num dueto tão improvável quanto genial. Antes da música, porém, Itamar fez registrar sua moção de apoio ao colega baiano. ‘Parabéns ao João Gilberto que preferiu a arte ao dinheiro’.
Não sabia exatamente o que pensar. Quem realmente prefere a arte ao dinheiro não deveria reembolsar o suposto cachê de 60 mil dólares aos promotores da festa estragada? Houve eco demais ou não houve? Um empreendimento desta magnitude pode ser inaugurado com tamanha imperfeição? Quem investe mais de 30 milhões em negócios ligados à cultura merece dose extra de complacência? Qual o número limite de reclamações aceitáveis com relação ao som, usando a escala Tim Maia? Duas? Quatro? Doze? Ter generalizado a acusação de bebedeira a toda platéia foi injusto? Os donos de celulares que tocaram deveriam ser atirados ao calabouço? E os garçons que derrubavam copos, deveriam ter suas licenças cassadas?
Nada disso parecia ter ou fazer muito sentido, até que encontrei um amigo numa praça procurando um objeto e refletindo ao mesmo tempo. É dele, aliás, a única reflexão que me tocou sobre o episódio, por si, de menor importância.
‘Acho que um mestre como João Gilberto poderia tudo…’, disparou meu considerado. ‘Reclamar do som, blasfemar, ameaçar ir embora, até mesmo se dizer argentino…’ continuou. ‘Só uma coisa me soou absolutamente imprópria e indigna de alguém a quem se atribui o título de mestre: Eu não admito o errado!’.
De fato, como pode um mestre, alguém de quem se espera a cada minuto converter o errado em certo, o imperfeito em belo, o torto em reto, proferir tamanha incongruência? Vindo do útero da bossa-nova, o errado mais certo do mundo, o grau do absurdo eleva-se a ponto insuportável.
É o mal sentido da palavra velhice, quando a atribuem a alguém que não usou o tempo em seu benefício e, portanto, não percebeu que a graça está no caos, na montanha de erros que se transforma em harmonia com o passar do tempo.

É a afirmação da desesperança vinda de alguém que vive e mais do que isso, representa em tudo o Brasil, um certo cercado de erros por todos os lados. Só nos resta assumir interinamente na ausência do titular, a cadeira do mestre e perdoar o erro, tirando dele o que houver de melhor, nesse caso, a habilidade incrível de receber um eco horrível e devolver músicas belíssimas.

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