A chuva descomunal que caiu semana passada foi didática. Não serviu apenas para rememorar a ‘brilhante’ administração perpetrada por Celso Pitta, em seus derradeiros momentos. Bem mais que isso, a água caindo do céu por uma hora e meia, em quantidade ligeiramente acima do normal, funcionou como uma espécie de aula de atualização sobre quem de fato manda no jogo que imaginamos jogar tão bem.
A categoria dos que se julgam poderosos é uma das que mais sofrem durante este tipo de aula. O marajá que subia ao heliporto para seguir até sua próxima reunião, na qual decidiria de que forma venceria a concorrência para privatização da siderúrgica, teve que aguardar imóvel debaixo de um ‘puxadinho’ de dois por dois e, pior, foi obrigado pela primeira vez em quase quatro anos a conversar com seus dois seguranças, dos quais sabia apenas os primeiros nomes e a firma à qual pertencem.
A dama da sociedade lembrou, graças à precipitação pluviométrica, que seu corpo, diferente de sua existência, tinha alguma utilidade além de servir de cartão de visita, ou um reformado cabide de roupas, jóias e cirurgias. Surpreendida numa rua importante de comércio, viu-se obrigada a tirar os sapatos de salto e correr, correr como não corria desde os onze anos, sentindo a água escorrer pelo corpo, empapando o vestido.
Teve ainda que subir a qualquer custo na mureta de um estacionamento, um dos únicos pontos que a colocavam a salvo da enxurrada. Não sentiu medo. Ao contrário, encheu-se de orgulho e de prazer lembrando de uma dimensão de sua existência da qual não recebia sinais há anos.
RAULZITO
Se todas as ruas da cidade pudessem receber caixas de som tocando a mesma música, a trilha daquela hora e meia teria, a qualquer custo, que ser ‘O Dia Em Que a Terra Parou’, com Raul Seixas a plenos pulmões.
É triste ver árvores sendo rachadas ao meio, favelas deslizando como glacê de bolo derretido, gente pobre sofrendo as piores conseqüências da pobreza, desabrigo, frio, fome, desamparo…
Mas a serventia deste drama é enorme. Ele provoca milhares de pequenas reflexões, fazendo cair goteiras nos closets das madames, carros blindados saírem boiando à revelia, helicópteros se transformarem em mariposas impotentes e sem asas, reuniões inadiáveis serem adiadas, políticos poderosos sem poder judiar de ninguém por alguns minutos. Uma alteração de ritmos e relações, cujo impacto, de tão positivo, talvez merecesse repetições mais freqüentes. Será que o fato de não termos por aqui as catástrofes da natureza que assolam outros países anualmente, nos faz um pouco piores? Ponto bom pra refletir, mas só na próxima chuva, quando teremos tempo para lembrar que estamos vivos. Não por muito tempo.