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O caso Waldomiro livrou o PT de um fardo: o de ser santo

Uma boa decepção.

O caso Waldomiro livrou o PT de um fardo: o de ser santo

Créditos: Henrique Marianno


em 21 de setembro de 2005

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Caro Paulo,

Você está indignado com a atitude do PT no caso Waldomiro Diniz? Eu não. Senti até um alívio ao ver o lado sombrio do PT vir à tona para deixar claro que a desgraça da corrupção, da molecagem e da imaturidade é coletiva.

Eu me senti menos solitário na minha pequenez, nas minhas injustiças, nos meus medos, no meu pragmatismo egoísta e na sedutora conveniência que volta e meia toma conta das minhas decisões. A desgraça é coletiva, repito. Aprendi que oscilar entre o bem e o mal faz parte da condição humana. Anjo e demônio, mocinho e bandido na mesma pessoa. É essa luta interna que possibilita que a gente evolua.

Tudo bem. A vida como ela é. Nenhuma novidade. Mas a possibilidade de evoluir fica comprometida quando alguém coloca o mal no outro em vez de dentro de si. Nessa hora, a pessoa fica perigosa, se torna uma ameaça. Ela ameaça a minha aventura de viver, me rotula, me aprisiona, me tira a graça de optar entre bem e mal, me tira a chance de ser herói. Acaba com a luta interior, com a possibilidade de evolução e estabelece a guerra entre os bons e os maus fora, na sociedade.

Quando evitamos esse conflito de consciência, deixamos de ser mortais, nos julgamos donos da virtude e da verdade, fazemos guerra. Por isso, tenho medo de quem se julga com o monopólio da virtude e da ética. São eles que criam as condições para o cinismo, a alienação e a hostilidade na sociedade.

O mal de cada um

Homens públicos bem-intencionados ajudam os outros a compreenderem a condição humana para, assim, criar a paz. Martin Luther King Jr. tinha tanto medo do impasse maniqueísta ao qual o mundo tinha chegado que proclamava que amássemos nossos inimigos. Ele dizia que o mal criava uma reação em cadeia “ódio gerando ódio, guerra gerando guerra” que precisava ser quebrada a qualquer custo. Caso contrário, a humanidade cairia num profundo abismo de destruição. É isto: se o mal não está dentro de ninguém, ele está solto, gerando mal à vontade. Mas, se estiver dentro de nós, ele está situado, tem um sentido, que é provocar reflexão. Cada um se torna responsável por decidir se vai se expressar na sociedade pelo bem ou pelo mal. Ninguém é anjo ou demônio. Somos todos anjos e demônios ao mesmo tempo.

Se o mal está dentro de cada um, ninguém é pior nem melhor do que o outro, e o desafio de fazer um mundo mais maduro e solidário passa a ser coletivo. E a desgraça coletiva é mais suportável, torna a vida mais fácil. Em vez de lamentar a corrupção no PT, comemoraríamos o fato de a experiência do PT no poder ser inédita e necessária para o amadurecimento da sociedade brasileira. Essa decepção é necessária. Esse desencanto é bem-vindo para a história de um Brasil menos ingênuo, menos paternal, menos idealizado, menos assistencialista, menos impune, menos infantil e mais realista, mais próximo das pessoas como de fato elas são.

O discurso humanista impõe a imperfeição como condição de sucesso. Somos todos pecadores, e a vida fica mais confortável assim. Depois desta conversa, até entendo melhor o que Nietzche quis dizer em Ecce Homo: “Tenho um medo horrível de que, um dia, eu seja proclamado santo”. É isso aí. Deus nos livre dessa condenação. Fique com o abraço do amigo não santo,

Ricardo.

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