De uns tempos para cá, as mulheres começaram a confessar algo que já era mais que notório nas rodas de marmanjos.
Brasileiros e brasileiras adoram, veneram, amam e se excitam com bundas.
Nádegas protuberantes, glúteos que se integram à silhueta como o porta-malas de um automóvel três volumes, músculos e gorduras apertados por calças jeans, shorts de lycra ou mesmo apenas separados pelas tiras de panos, vendidas a preço de ouro com o nome de biquini. O fato é que amamos bundas como os suíços amam queijos e relógios, os franceses amam vinhos e brioches, os italianos amam pizzas e os americanos um bom par de seios.
São infinitas as histórias geradas pelo tal fascínio. Na propaganda, por exemplo, os ‘cases’ de exploração da musculatura glútea feminina pra vender produtos dariam para encher dois volumes da Barsa.
Posso mencionar um, no qual me envolvi, ainda que involuntariamente. Há cerca de seis ou sete anos, recebi no escritório da revista, a visita de uma dupla de jovens irmãos e empresários.
Os irmãos Aguerre, argentinos de nascimento, viviam em San Diego, Califórnia e tocavam dali, uma bem sucedida e interessante operação de marketing. Trata-se de uma fábrica de sandálias de praia feitas de borracha, voltadas para público amante do surf e frequentador dos litorais do planeta. Além de serem argentinos e viverem na Califórnia, os irmãos resolveram dar às sandálias o nome ‘Reef Brazil’ talvez porque boa parte da produção fosse executada com borracha brasileira em oficinas na zona fabril de São Paulo.
Mas o motivo da visita de Santiago e Fernando era na verdade, colher informações sobre o mercado brasileiro, onde, àquela altura, desejavam fincar um pé. Depois de lhes sugerir o nome de Álfio Lagnado, com quem acabaram por firmar contrato, ouvi uma inesperada pergunta em tom de desabafo ‘O que você acha que faz sucesso com a moçada em termos de propaganda? Não aguentamos mais publicar em revistas do mundo inteiro, páginas com fotos de sandálias de borracha. Do que a molecada gosta?’.
Achei que dois empresários com a tarimba e o êxito dos irmão Aguerre não estivessem realmente dispostos a mudar sua linha de comunicação, mas apenas sendo gentis tentando valorizar minha opinião.
Não levei muito a sério a pergunta e respondi em tom de brincadeira: ‘Só há duas coisas que a surfistada realmente respeita e admira. Surfistas geniais e bundas maravilhosas. Contratem atletas de ponta e fotografem garotas de costas.’
Entre surpresos e felizes os irmãos deixaram meu escritório rapidamente. Cerca de seis meses depois, abri uma revista americana e me senti culpado. Uma página dupla dividida ao meio mostrava à esquerda um surfista do primeiro time mundial fazendo o que sabe fazer. Do lado direito, uma gata maravilhosa vista de trás exibia pernas e nádegas de porcelana num paraíso litorâneo qualquer. Achei que seria minha culpa a iminente falência da empresa dos simpáticos irmãos. Seis anos depois, a marca é uma das mais fortes do mundo. De Santorini na Grécia, a Nias na Sumatra, é impossível não trombar com um display destas sandálias ou ver um dos anúncios que até hoje exibem surfistas e bundas cada vez mais competentes.
Mas se os anúncios das sandálias agradam em várias partes do mundo não há como negar qua a preferência pelos glúteos se dá em intensidade infinitamente maior no território brasileiro. Trata-se de verdadeiro fator de integração nacional.
As explicações acadêmicas para o fenômeno são sempre chatas e fáceis.
Fala-se muito, por exemplo, da importância do elemento negro na formação de nossa raça. Segundo esta corrente de pensamento, as nádegas privilegiadas das negras da senzala e das famosas amas de leite, seriam objeto do desejo inconsciente de todos os descendentes brancos, marrons, mamelucos e até amarelos. É verdade que nisseis e sanseis também apreciam um bom par de nádegas, mas a tese parece muito distante.
A melhor e mais interessante explicação para o fenômeno me foi dada por um P.h.d. em psicologia o tão polêmico quanto interessante Dr. Jacob Pinheiro Goldberg.
Autor de dezenas de livros sobre a mente e o comportamento humano, Jacob me disse certa vez que a bunda traduzia em si, o mais perfeito e acabado resumo do Brasil e da nossa gente: uma enorme, bela e redonda contradição.
A bunda é ao mesmo tempo, templo de beleza e estética indiscutíveis que esconde em si o proibido mesmo sendo protuberante e exibida. É bela, carnuda e exuberante, dança e chacoalha ao som dos tambores e esconde em seu interior o prazer e o pecado, o sagrado das formas belas e do prazer e o profano da sujeira, do excremento, do que deve ser escondido. Convivendo em harmonia aparentemente inexplicável, o orgulho da beleza e da sensualidade com a vergonha e o complexo da excrecência. A bunda é Rocinha com São Conrado e a praia do Pepino bem ali, é a favela Naval, seus PM’s e traficantes, a alguns quilômetros da Haddock Lobo ou da praia de Pernambuco, é Antônio Carlos Magalhães de braços dados com Darcy Ribeiro, é Fernando Collor com Fernando Henrique de ministro.
O Brasil é bunda!