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O 8º Elemento

Ilustração Beto Shibata

Caro Paulo,

Está cada dia mais fácil saber o que se deve fazer para se dar bem na sociedade atual. Basta dar uma olhada nas bancas de revistas e livrarias para ver incontáveis títulos dizendo que o segredo do sucesso é você se conhecer e apostar no que gosta. Quem trabalha com gente sabe que esse segredo é antigo. Mas foi no fim do século passado que essa virou a principal conversa de 99% dos gurus de desenvolvimento humano e organizacional. Beleza. Mas o fato de muita gente falar não quer dizer que estão ouvindo. Galera ainda acha que esperto é conhecer as regras do jogo para jogar melhor e ganhar dos ou-tros. Poucos se pensam capazes de mudar as regras do jogo. Ou inventar um jogo novo. Com isso, passam a vida infelizes, correndo atrás do sucesso sem nunca alcançá-lo. 

Por isso estou festejando o lançamento do mais recente livro do Stephen Covey, guru considerado pela revista Time uma das personalidades mais importantes do século 20. Entre os feitos de Covey está um outro livro, de 1989, que já vendeu 15 milhões de exemplares no mundo todo: Os Sete Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes. Confesso que sempre achei “how to” demais, um excesso de simplificação da vida. De qualquer forma seu sucesso estrondoso fala muito mais alto que minha infundada opinião. Quer dizer, o homem deve ser bom e o livro tem seu valor.

O bacana é que este mesmo Covey lançou agora, aos 72 anos de idade, o oitavo hábito: Find your own voice and help others to find theirs, que, na infeliz tradução oficial, ficou: Encontre sua Voz Interior e Ajude os Outros a Encontrar a Deles. A tradução ficou meio babaca porque a expressão “voz interior” é comprometida com essa história de auto-ajuda, caminho batido e banalizado demais.

O que eu curto em tudo isso é o fato de o oitavo hábito ter sido “esquecido” e, só agora, no século 21, vem a público com uma gala, uma solenidade e uma importância que ne-nhum dos sete hábitos anteriores mereceu. Genial! Porque esse é o hábito decisivo de uma vida que vale a pena. Saber o que você pensa, conhecer seus valores pessoais e usar esse conhecimento para criticar e surpreender o mundo é tudo o que faltava para fazer as habilidades e competências de uma pessoa terem real valor na sociedade atual.

Covey diz: “Sem saber o que você pensa, sem conhecer suas crenças e valores, você não poderá escolher uma empresa com a qual se identifica, conseqüentemente, não terá autonomia para decidir nem para criticar seus processos, seus produtos e propor inovações. Você dependerá eternamente de alguém ou de um manual que te diga o que é certo e errado naquela empresa”. Em síntese, você será uma peça da engrenagem movida by the book, e não um indivíduo autônomo movido by the soul.

Curto também o fato de o oitavo hábito ter sido escrito por Covey aos 72 anos de idade. Pessoas nessa fase da vida são maravilhosas porque não se iludem mais com aparências e superficialidades e se tornam muito práticas e objetivas, expressam uma sabedoria de quem viveu e não de quem leu ou ouviu falar.

Lembro da história de um jovem muito rico que decidiu dedicar sua vida a pintar um quadro perfeito. Comprou os melhores pincéis, tintas e telas, estudou com os me-lhores mestres e se inspirou viajando para os lugares mais lindos do mundo. Mas nada de pintar um quadro perfeito. Um dia, já velho e quase sem fortuna, lá estava ele irritado e impaciente, cercado de seus pincéis, tintas e telas, dominando todas as técnicas, num lugar superinspirador tentando pintar o quadro perfeito sem conseguir. E destruía tela após tela depois de cada tentativa frustrada. Um velhi-nho que observava o estado lamentável do pintor se aproximou e perguntou porque ele estava tão irritado. O velho artista, contrariado com a interrupção, contou rápida e angustia-damente tudo o que fez e como gastou toda sua vida e fortuna na frustrada empreitada. Calmamente, o velhinho disse: “Mas é tão simples pintar um quadro perfeito…”. “Como assim??!!!”, gritou o artista. O velhinho respondeu: “É simples… Primeiro você se torna um homem perfeito, depois você pinta naturalmente”. Eta velhinho danado. 

Fica com o abraço do amigo velho,

Ricardo.

*Ricardo Guimarães, 56, é presidente da Thymus e acredita em hábitos – apesar de não vestir um. Seu e-mail é: rguimaraes@trip.com.br

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