por Décio Galina*
O jornal Notícias Populares, aquele dos crimes mais cruéis, das histórias mais inusitadas, das bizarrices em letras garrafais, está passando desta para uma melhor. O folclórico periódico paulistano vai descansar em paz após 38 anos muito bem vividos ao lado do cidadão humilde.
O jornal do trabalhador, que eternizou o lema nada mais que a verdade, sobreviveu até a um processo, no começo dos anos 90, o qual requeria que os exemplares fossem distribuídos dentro de um saco plástico escuro. Na mesma época, surgia o Trips Populares, uma parceria de um ano entre a Trip e o NP que juntava a linguagem sem frescura do jornal com as pautas criativas da TRIP, tudo impresso em papel-jornal na própria revista.
Entretanto, o NP bateu as botas e deixou órfão um povo fantástico que se equilibra nas beiradas da metrópole. Um pessoal que, às vezes, andando pela rua de casa, com o saco de pão na mão, tropeça num cadáver cravado de balas de grosso calibre na cara.
MUDANÇA DE ALMA
O nome do jornal não vai sumir das bancas, o NP continua. Mas não é segredo nenhum que, no restante, tudo mudou. Comenta-se que o badalado mundo mágico dos artistas e dos famosos vá desbancar o sanguinolento noticiário policial.
Além das manchetes históricas, certos profissionais também vão deixar saudades. Figuraças como um fotógrafo de guerra; um colunista espírita; uma dupla de repórter e fotógrafo que cobrem polícia juntos, mas não se falam; o inimigo número um do Pelé ou um desenhista que ergue um Passat no braço só para se exercitar. O NP é o maior patrimônio da imprensa popular escrita no país. Mudanças são bem-vindas, se bem executadas. O que não gostaria é de ver o leitor do Capão, Taipas ou do Cantinho do Céu ficar esquecido pela mídia, diz Fernando Costa Netto, ex-editor-chefe do jornal e da Trip.
CACETADA NO EXPEDIENTE
A redação do NP foi palco de acontecimentos inusitados. Um caso clássico aconteceu há décadas, no dia seguinte à publicação de um artigo sobre o suposto envolvimento de Jacqueline Kennedy com drogas. Apareceu um senhor, de uns 40 anos, todo alinhado, que começou a questionar a reportagem. Esbravejava que ninguém podia falar mal dos Kennedy. A gritaria irritou o editor de polícia da época, José Lázaro Borges Campos, o Lazão, que tentava se concentrar no fechamento. Lazão encarou o reclamante e passou a falar barbaridades da família Kennedy. Avacalhou a pobre Jac e espinafrou John. O bem-vestido investiu numa porrada na orelha do jornalista. O troco foi imediato. Lazão sacou um vidro cheio de cola e arremessou no defensor do american way. Passada a turbulência, a edição finalmente foi fechada.
O fato de o periódico do povão não trazer mais à tona a violência crua das ruas paulistanas não quer dizer que vivemos dias melhores. A diferença é que ninguém mais vai trazer até a banca do centrão o que acontece com gente miúda. A ausência do corpo fuzilado nas primeiras páginas do jornal não muda a rotina cada vez mais escabrosa do mundo-cão paulistano. A questão é que ninguém mostra. Daí, parece que está tudo bem. Descanse em paz, Notícias Populares.
[*Décio Galina, 27, é jornalista e trabalhou no NP durante cinco anos. Quando deixou o jornal, em novembro último, era editor de geral]
GRUPO FOLHA ADMITE MUDANÇAS
TRIP falou com Adriano de Araújo, diretor geral dos Jornais Populares do Grupo Folha da Manhã, que reconhece o fato de a empresa estar estudando uma reformulação no Notícias Populares para o ano que vem. Estamos avaliando mudanças de conteúdo e no padrão gráfico, mas é cedo para dar detalhes, diz o diretor. A reportagem apurou que preço e formato também poderão mudar. A inovação tentaria aumentar a credibilidade do NP – que ficou famoso por trazer notícias como a do Bebê Diabo -, visando torná-lo mais atraente para os anunciantes.
[Phydia de Athayde]
