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Novos aprendizados

É quase impossível alimentar esperanças vivendo em um mundo e em um país como o nosso. No entanto, é exatamente em um mundo e em um país como o nosso que se faz absolutamente necessário manter a esperança. Imperioso lutar contra a desesperança, mesmo que tenhamos que nos impor uma esperança inexistente. É o ânimo que importa. Esse fogo que desencadeia o processo da procura, que nos define enquanto humanos, incompletos e inacabados em busca de. Ainda bem que desesperança, sempre afirmo, á um acidente na existência humana. Mais fácil alimentar esperanças do que cultivar desesperança. Bem, pelo menos essa foi minha prática e das pessoas que observo aqui fora. Vivo estudando pessoas, elas me interessam profundamente; estão sempre a me surpreender e encher de esperanças.

Sabe aqueles momentos em que você se sente feliz em estar vivo, que valeu a pena encarar tudo até agora, diante uma janela aberta ou de um sorriso de bem querer? Foi assim que me senti hoje. Encharquei a alma de esperanças, como uma esponja. Estive em Alambari, pequena cidade aqui próximo de São Paulo. Fui participar de uma Oficina Literária, dentro de uma biblioteca fundada e mantida pelo Instituto Ecofuturo. Procuro construir meu futuro na luta por me refazer, fazendo-me. Queria conhecer melhor e aprender com a grande educadora Maria Betania, da Organização Pingo é Letra.

Foram cerca de cinco horas que eu, essa pessoa teimosa e viciada em viver, fiquei em suspenso. Ela foi, aos poucos e através dinâmicas físicas e orais, nos levando à conclusão de que a leitura e a escrita são partes integrantes do desenvolvimento de um ser humano. Começa nos fazendo pensar e sentir o nenê em seus difíceis aprendizados. Sentar, engatinhar e depois andar são empresas da mais alta complexidade. Depois vem o controle do intestino, o aprendizado da fala que continua pela vida toda, o raciocínio lógico e então chega o processo de desenvolvimento da leitura. O conhecimento da escrita é quase concomitante, uma conseqüência lógica.

São anos, décadas até que, a partir do lar e depois na escola que parece não acabar mais, para que esse desenvolvimento fundamental seja efetuado. Depois da assimilação dos códigos de comunicação da humanidade, vem a leitura de mundo. Mas é no cotidiano que a história se concretiza; que a geografia se localiza; a matemática calcula e mede; os valores se aplicam e a realidade se concretiza.

Acho que todos nós sabemos disso. O surpreendente para mim foi esse modo de encarar a leitura e escrita como parte integrante do desenvolvimento físico e mental do ser humano. Embora seja o óbvio. Programados para aprender e ensinar, “ensinantes”, como quer Paulo Freire, quase a gente não se apercebe da espontaneidade desse processo. Nós realmente não nascemos feitos. Vamos nos fazendo, construindo social e historicamente em busca de atingir objetivos, não todos, mas todos aqueles que nos são devidos. Essa é nossa presença no mundo.

Acredito na Educação e na Cultura levada nesse sentido de estruturar o desenvolvimento natural e espontâneo do ser humano. Construir e direcionar curiosidades é realização que enche meu coração de esperanças em um mundo melhor, à falta de outras. Reconstruo minha esperança a cada instante dentro desta perspectiva. Nós nos ensinaremos a estarmos melhores.

* Luiz Alberto Mendes, 54, autor de Memórias de um sobrevivente, ficou 30 anos guardado. Solto, tem muita história para contar. Seu e-mail é lmendes@trip.com.br

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