Cheguei, meio que sem saber de nada, e aquele mar de camisetas cor de abóbora me tornou uma ilha cercada de gente por todos os lados. Ganhei camiseta branca da imprensa com o logotipo da Nike e já comecei a ser contaminado pela alegria geral. O clima era de festa. Todos olhavam todos e sorrisos pipocavam no ar junto com os flash dos fotógrafos. A alegria extrapolava os corpos e envolvia toda a rua em um manto de calor humano.
Voltei ao carro que me conduzira e lá estava o estraga prazeres do guarda. Multa, estacionamos em lugar proibido. O ar inflou o labirinto dos meus pulmões, saltando da boca num longo suspiro. Suei debaixo dos braços e enruguei a testa. Doeu no bolso. Ao apagar de cada luz, sei que o sol há de brilhar mais intensamente, portanto engoli em seco e procurei assimilar o golpe.
Voltei à festa e aos poucos fui reconhecendo personagens. Os atletas Joaquim Cruz, Fernanda Keller, Vanderlei Cordeiro de Lima, Marilson Gomes dos Santos e Carla Moreno. Ninguém parecia mais importante. Ali éramos todos iguais. O pessoal da MTV estava em peso, literalmente, na pessoa do João Gordo e na beleza exótica de Domingas Person.
Minha alma líquida fluía, como um beijo, misturando-se àquela comunidade de corredores. Os números impressionavam: 6.185 mulheres e 13.815 homens. Somava 20 mil corredores. As idades variavam. Desde, o sr. Carlos Marchetti de 82 anos (animadíssimo!), aos jovens Lívia Burchianti e Abel Córdoba, com 16 anos. Claro, boa parte estava ali para participar e contribuir com a festa, mas quando deram a partida às 8 h., todo mundo correu com tudo o que possuía de vontade.
Infelizmente, não havia me inscrito e assistir não é meu forte. Quis correr, suar e amar em conjunto com aquele povo todo. Fiquei ali, filando o amor alheio, espantado com minha infinita carência. Aquela multidão entusiasmada me fazia perceber a profundidade de minha insignificância. O amor, definitivamente, não é para amadores como eu.
Havia vários motivos para aquela festa. Um deles, em especial, me emocionou demais. Beneficiava 340 crianças e adolescentes que participavam do Projeto Esporte Talento. Mais uma vez o Instituto Ayrton Senna, agora em parceria com o Cepeusp, atuando em favor de nossas crianças.
É lindo, maravilhoso, sentir o quanto o ideal de um homem pode ser grandioso. Isso é amor de verdade, patriotismo e respeito à vida. Pena que nem todos os brasileiros que ficaram milionários no exterior sintam a força de tamanho ideal. Poderiam revolucionar o futuro de nosso sofrido país.
As pessoas corriam ou andavam e eu os olhava invejoso. Corri cerca de 30 anos em torno dos pátios de recreação das penitenciárias pelas quais passei. Por conta disso pude sentir a expansão da liberdade nos pés, no suor e no olhar cansado, mas feliz, de cada um dos participantes.
Nas cidades de Bogotá, Buenos Aires, Caracas, Lima, México, Santiago e São Paulo, correram 80 mil pessoas no mesmo dia. Foi o maior evento de corrida realizado na América Latina. E sempre tendo como pano de fundo o apoio a entidades que cuidam da infância dessas cidades. Claro, havia também o objetivo que muitos consideravam principal: proporcionar diversão e estímulo à prática de correr.
Não restam dúvidas de que a Nike lucrará prestígio e agregará valores de marketing à sua marca. Mas em mim fica a esperança de que as demais multinacionais, que dominam o mercado interno do país, sigam o exemplo. A iniciativa deixa claro que o comércio, assim como a vida de relações, em tempos modernos, exige troca e participação para que dê certo.
Propositalmente, nem quis saber quem ganhou. Não era importante. Solenidade esmaga. O show de encerramento foi delicioso, mas o mais interessante para mim foi a comprovação do que já sabia. Dinheiro e bens materiais somente motivam os tolos. As pessoas de verdade buscam o sentido de viver e ser nas idéias, realizações e convicções.
