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Never mind the gap

Por Ronaldo Bressane, de UK*

Liverpool é um parque temático dos Beatles. Em todo lugar se sente resguardada a atmosfera das músicas do quarteto fantástico – na Penny Lane, o mesmo barbeiro da canção de Paul segue tosando o mesmo modelo de costeletas, 40 anos depois. Os Strawberry Fields de John estão forever no mesmo lugar, e tudo gira em torno da maior banda de todos os tempos – até o fim do ano, abre por aqui o Hard Day’s Night Hotel (não há nome melhor…). É claro que você vai passar algumas noites no Cavern, casa onde os Beatles tocaram 292 vezes, segurando um pint de Guinness e pensando no que perguntaria a um Ringo bebum quando ele encostasse a barriga no balcão. O bar, que funciona vários andares abaixo do nível da Matt Street, não é o original – mas está igualzinho, com os mesmos pôsteres, as mesmas inscrições nos tijolos, a mesmíssima decoração e arquitetura.

Outra viagem no tempo se faz no Beatles Experience. Deve ser o primeiro museu do mundo em que cada sala é praticamente uma canção. Você passa debaixo da árvore onde John se balançava na infância (sério, é a mesma árvore), passa pela redação do Merseybeat, o jornal que revelou o quarteto, a loja de discos de Brian Epstein, o avião que os levou à turnê consagradora nos EUA, o Yellow Submarine, a capa do Sargeant Peppers em tamanho real, a sala branca com o piano branco de John Lennon e uma memorabilia inacreditável, dá pra passar fuçando cada detalhe. Aí, claro, no fim vem a loja e você começa a ser esfaqueado por todo lado… não se esqueça que aqui a libra manda, e cada uma compra R$ 4. Auch! À noite, a pedida é tomar umas no bar do classudo hotel Parr Street, onde também funciona um estúdio onde Coldplay e Echo & The Bunnymen gravaram álbuns. Depois, não deixe de ir ao Korova, bar de Rob Gutman, da banda Ladytron. Por seu palco passaram de 2manydjs ao curitibano Bonde do Rolê (ali, Bonde de Role).

O estiloso clube é dos que ficam até mais tarde abertos na cidade: freqüentado pelos modernos de Merseyside, tem flipper, sinuca, filmes de terror nas telas, muito “funk de favela” nas carrapetas e até a mineiríssima cachaça Germana dá suas caras – quando tocou no Brasil, Rob trouxe várias para adornar seu balcão, que é encimado por uma cabeça de vaca (em russo, korova). Ano que vem promete: Liverpool foi coroada a capital da cultura européia e pencas de shows, concertos, exposições e outras tretas estão programadas para acontecer por lá. Fique esperto.

Gameboy

Não se espante com o nome Fujiya & Miyagi: eles são três branquelos de Brighton, balneário no sul inglês. O trio formado por guitarra/voz/teclado (Steve Lewis, o Fujiya, uma marca de toca-discos), baixo (Matt Hainsby) e teclados (David Best, o Miyagi, aquele do Karate Kid) manda um tecnopop com muita classe. O som é seco, básico e direto. Quase todas as músicas martelam num 4X4 hipnótico, suavizado pela voz sussurrante de Steve, que conduz as canções com uma guitarra limpa. O baixão à frente responde pelo groove funkadélico, e os teclados de David armam camadas de melodias simples e minimalistas, sem mirabolâncias, preferindo timbres dos 70. Um Kraftwerk ou um Can que tivessem bebido em Talking Heads, mantendo o foco no minimalismo pop de um Cornelius. Indo ao ponto: perfeito pra levantar a pista. Pena que a do Korova, àquela hora adiantada (pra eles: eram 23h…), estivesse ocupada por cerca de 20 blasés liverpoolianos. Se fosse num inferninho de SP, a temperatura seria outra… Saiba mais aqui.

Hic

Os escoceses são os pernambucanos do Reino Unido: falam rápido, são calorosos, adoram uma cachaça (que lá é chamada de malte) e você não entende picas do que eles dizem. Não importa, Glasgow é demais. Por trás da aparente ordem e tranqüilidade da cidade, há bares, pubs, clubes e discos fervilhantes – e uma das cenas musicais mais quentes dos últimos anos, representada, por exemplo, pelos engraçadinhos do Dykeenies (um The Killers mais pop, a banda é considerada a next big thing britânica). Comece pelo Barfly, que além de pub tem boas bandas locais. Imprescindível é dar um pulo na dupla Mono / Stereo. No Mono, também uma ótima loja de discos lanchonete vegan, aparecem os roqueiros velhos da cidade, como o povo do Teenage Fanclub e do Belle & Sebastian, além de emigrados como Mark Lanegan.

 Já o Stereo é uma microcasa de shows mais roqueira. Se você quer dançar, o roteiro passa pela house do Bamboo e termina no Sub Club, onde, aos domingos, a dupla de DJs Optimo comanda as festas mais loucas de Glasgow. Mas imprescindível mesmo é dar uma passada no King Tut’s Wah Wah Hut, legendária casa que vive revelando nomes de peso na música britânica – o Oasis foi descoberto ali. Por falar em shows, se você puder passar só um fim de semana na Escócia, deixe para o fim de agosto: é quando começa o festival Connect, com um line-up de peso, juntando Björk, Beastie Boys, LCD Soundsystem, Primal Scream, Mogwai e até o nosso Cansei de Ser Sexy (no Reino Unido, chamado de CSS – aliás, quando você fala que é brasileiro, ninguém fala Pelé; fala CSS!). Dica: nunca chame um escocês de englishman – ele vai fechar a cara e te chamar de “cunt”, que nem preciso explicar o que é.

Sexo divertido

Asobi Seksu quer dizer “sexo divertido” em japonês (como se tivesse outra modalidade…). Banda novaiorquina morando em Los Angeles, tem só dois álbuns mas estiveram perfilados nas melhores revistas de música do eixo NY-Londres. A banda traz a lead singer e tecladista mignonette japonesa Yuki, seu partner guitarrista James Hanna, mais o baixista Haji e o batera Ben Shaphiro. Essa banda é muito poderosa ao vivo. A voz da Yuki lembra os vocais de Liz Frasier no Cocteau Twins, enquanto que a guitarra de James ecoa Jesus & Mary Chain e Sonic Youth. As canções são ao mesmo tempo delicadas e muito pesadas – e a platéia do King Tut’s gritava em êxtase toda vez que uma nova parede de teclados e guitarras era levantada. No fim do show, quando Yuki saiu dos teclados e se sentou à bateria, que espancou num slow rock sem nenhuma doçura, o clima era de sessão de desencapetamento geral – todo mundo gritando e babando. Yuki me disse depois que foi a melhor platéia que eles pegaram.

Do caos à lama

Se você pretende cair no buraco negro de grana que é o Reino Unido em julho, antes de tudo fuce a TimeOut londrina, a bíblia sobre o que de mais legal rola no quintal da rainha. Controle a ansiedade e vá direto ao que quer ver: as opções são inúmeras, mas o tempo para você reservar o seu ingresso é mínimo – quanto antes melhor (este repórter perdeu o antológico show de Lou Reed tocando só as canções do álbum Berlin por conta disso – na porta, o ingresso custava 150 libras. Reservando, eram 30…). Ingressos e passagens na mão, prepare suas botas de sete léguas. A idéia de diversão dos britânicos é um tanto bizarra: como chuva, garoa e tempestades são comuns, toda pista vira um lamaçal de dar inveja à Manguetown e nego se atira no barro feito caranguejo sem amanhã. No fim de agosto e começo de setembro, os principais festivais são o de
Reading, o de Leeds, o de Staffordshire e o Creamfields. Não custa lembrar… olhe para o lado esquerdo antes de atravessar a rua. E mind the gap.


*Trip viajou ao Reino Unido a convite do VisitBritain

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