Saiu, outro dia, mais um relatório da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação. O Brasil ganhou menção honrosa: é o recordista mundial em perda de áreas florestais. O desmatamento é de 3,1 milhões de hectares por ano. Alguém aí tem noção do que é um hectare? Eu não, só sei em quilômetros quadrados, mas 3,1 milhões de hectares são, nem mais nem menos, quase a metade do desmatamento do mundo inteiro que é de 7,3 milhões.
Não sou um ecologista daqueles, mas tenho uma certa dose de senso comum.
Os números impressionam. O governo brasileiro diz que não é bem assim, a expectativa do Ministério do Meio Ambiente é a de que este ano o desmatamento seja 40% menor do que no ano passado. Você, em quem acredita? Eu não sei. Não sei mesmo.
Fundamentalismo em Campo Grande
Só sei que o jornalista e ambientalista Francisco Anselmo de Barros morreu no domingo, dia 13 de novembro, menos de 24 horas depois de ter ateado fogo em seu próprio corpo. Aconteceu em Campo Grande. Durante um protesto ele molhou dois colchonetes com gasolina, ateou fogo e se enrolou neles. 100% de queimaduras no corpo. Não agüentou. Francisco Anselmo era o presidente da Fundação para Conservação da Natureza de Mato Grosso do Sul e o ato foi em protesto contra um projeto de lei que permite a instalação de usinas de álcool e de açúcar no Pantanal. O governador do Estado e a ministra do Meio Ambiente são do mesmo partido. Parece que não se entendem. No meio do caminho ficou a sombra do corpo de Francisco Anselmo. Um ato definitivo, desesperado, de alguém que tinha como ideologia pura a vida. A vida dos animais, do meio ambiente, das pessoas, do planeta. Alguém assim, com um passado de luta de mais de 20 anos, tomar uma atitude dessas me deixa com o queixo caído. Mesmo em seu desespero ele foi minucioso. Francisco Anselmo deixou 16 cartas. Em uma delas tinha instruções para seu velório, em outra ele escreveu: “(…) minha vida sempre foi um sacerdócio em defesa da natureza. Ela é a nossa casa e o presente maior de Deus. Se Ele deu a vida por nós, eu estou dando a vida por Ele, defendendo o futuro de nosso filhos. O mundo corre perigo e esta é minha modesta contribuição (…)”.
Só sei que no Amazonas rios secaram. Veja bem. Ouça bem: no-a-ma-zo-nas-ri-os-se-ca-ram. A maior bacia hidrográfica do planeta e blá-blá-blá. Faz sentido? Não, claro. Ver para crer, mas as fotos nos jornais mostraram os leitos de areia expostos por quilômetros e quilômetros, os barcos encalhados.
Só sei que um vizinho meu, aqui no bairro, em São Paulo, derrubou três árvores que tinha no fundo do quintal. Pode ser que tenha sido por causa dos cupins. Uma praga deles, ultimamente, estragou um monte de árvores. Pode ser. Não sei. Cada um tem suas razões. Quem se ferra? Somos nós.
The Shell Refinery, Ellesmere Port. Crédito: The Frances Frith Collection / Saiba mais na acp desta edição
*J. R. DURAN, 53, ganha a vida como fotógrafo, mas sua pena está cada vez mais afiada. Seu e-mail é: studio@jrduran.com.br
