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Não rouba e faz

Estou com a alma lavada. O penta foi lindo. Não me lembro de nada que tenha me emocionado tão alegremente por tanto tempo. Foi muito além da vitória do futebol.
Estava vendo a final na casa dos queridos Barros, criadores da divertida bateria ‘abafagalvão’ – isso mesmo, para abafar a voz do Galvão -, feliz da vida com o 1 X 0, quando de repente Rivaldo me surpreendeu com aquela deixada de bola para o Ronaldo fazer o segundo gol. O que que é isso? O ausente Rivaldo daquele segundo tempo tinha todo o direito de meter o pé na bola e marcar sua presença, mas não. Rivaldo não interferiu: ele abriu mão da possibilidade da autoria de um gol no final de uma Copa do Mundo! De onde ele tirou tamanha grandeza, maturidade e visão global? Não parecia o mesmo Rivaldo moleque que catimbou ingenuamente contra a Turquia, fingindo uma bolada no rosto. Aquele ‘não passe’ para o Ronaldo redimiu o Rivaldo para mim e me liberou para comemorar a vitória com tudo que tinha direito. Dancei o dia inteiro.

Talento sem molecagem
Concordo com o Juca Kfouri: não acho que ‘vitória roubada é mais gostoso’, como disse o Bial. Nem acho que ‘futebol é assim mesmo, coisa de moleque que não pode ser transformado em coisa de senhores’, como disseram o Cony e o Xexéu para um Heródoto Barbeiro perplexo com o conformismo conservador dos colegas de CBN. Heródoto até tentou dar umas chances para eles consertarem seus comentários juvenis: ‘Mas vocês não acham que o esporte educa? Que um garoto vai modelar seu caráter, seu comportamento pela atitude do seu ídolo?’. Que nada! Faltou pouco para Cony e Xexéu estranharem o Heródoto, chamando-o, molequemente, de maricas!
Ganhamos a Copa no mérito. Luiz Felipe trabalhou, produziu e gerou resultados. O time jogou com garra, com talento individual e integrado. Não foi vitória roubada. Nem catimbada. Não foi resultado fraudado como os que estamos vendo nas empresas que não conseguem mais controlar as regras do jogo da manipulação: Enron, Andersen, Worldcom, Vivendi, Xerox etc. and more to come.
Não vejo nenhuma diferença entre o futebol moleque e essas empresas fraudulentas. Ambos são vítimas da busca de resultados a qualquer preço, sem mérito de processo. Ambos são vítimas de uma cultura que dissocia o trabalho e os negócios da vida real que queremos viver. Coisa antiga nessa altura do campeonato.

Drible quebradeira
Lembro de quando eu criança perguntava a meu pai – pessoa muito humana e justa que dirigia um grande banco em São Paulo -por que ele chegava do trabalho tão triste e contrariado. Ele dizia que eu não ia entender, que o mundo dos negócios era muito complicado para uma criança. Sua única resposta, constrangido, era que no trabalho ele tinha que fazer coisas com que não concordava pessoalmente.
Meu pai hoje estaria muito feliz de ver essas empresas quebrarem. Não pelo prejuízo em si, mas porque estaria evidenciada a dificuldade de se fazer sucesso sem real mérito. Dá até vontade de pôr mais filho no mundo para participar e usufruir da reconstrução de um novo mundo dos negócios a partir dos escombros de Wall Street.
Acho importante saber catimbar, escolher não catimbar e ga-nhar o jogo. Em alguns momentos dá mais trabalho. Mas isso não tem tanta importância porque quem escolhe não catimbar já se gratifica no próprio jogo e o resultado é conseqüência natural. Talvez no futuro, depois que a gente amadurecer todas essas molecagens que alguns colegas seus insistem em conservar, o simples jogar com talento e prazer seja considerado o melhor resultado. Bom demais para ser verdade. Mas uma boa aposta tendo em vista a quebradeira que vem pela frente.
Fica com o meu abraço, extensivo aos membros lúcidos e inconformados da classe.

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