Temos medo de mudanças. Parece ser algo atávico contra o que podemos muito pouco. Qualquer ameaça ao conhecido, por pior que ele possa ser, soa aterrorizante. Assim, não é difícil entender o sentimento de angústia global, os altos índices de vendas de drogas lícitas para aplacar tensões, depressão e induzir o sono. É como se precisássemos desesperadamente de algo que nos ajude a lidar com um jogo que tem regras tão absurdamente mutantes que ninguém mais tem sequer condição de conhecê-las. O fato é: das relações afetivas às de trabalho, da forma como nos locomovemos e nos comunicamos às definições de gênero e à morfologia dos nossos corpos e rostos, nada mais será estável, claro, finito, definitivo nem sequer parecido com o que entendíamos como verdade alguns meses atrás.
Claro, haverá passeatas de motoristas de táxi revoltados com a chegada de aplicativos que subvertem a ordem vigente. Veremos parlamentares raivosos tentando impedir que pessoas manifestem e exerçam suas vontades e naturezas afetivas e sexuais, magistrados batendo seus martelinhos para vetar instituições e comportamentos que consideram impróprios, queixumes fúteis, sofrimentos reais e toda sorte de haters odiando tudo e todos o quanto e enquanto puderem. Mas como um Shiva desgovernado, as mudanças seguirão impávidas em suas inexoráveis trajetórias de destruição e reconstrução.
Pouca coisa soa mais antiga do que dizer que o mundo agora impõe como condição atuar em um cenário (roteiro, elenco e teatro incluídos) em permanente mutação. Uma opção é tentar segurar a água com a mão. Invariavelmente, a frustração impotente ao vê-la escorrer entre os dedos vai bater. Outra, para ficar na solução aquosa, é tentar aprender com o surf, metáfora que nos é tão cara por aqui. Trata-se de uma arte em que a grande graça é justamente aprender a dançar estabelecendo uma harmonia semicaótica e tão arriscada quanto bela, entre um ser humano e um meio que nunca para de se mover e de se transformar.
Paulo Lima, editor
