texto e fotos Ronaldo Bressane
No sertão, é possível constatar a possibilidade da criação de um novo esporte radical: o trekking místico. Prova preliminar: Bom Jesus da Lapa, cidade-santuário baiana que atrai mais de 300 mil romeiros na Semana Santa. O centro de Bom Jesus é um imponente rochedo de 70 metros de altura, à margem do rio São Francisco. O passeio é meio perigoso: você tem que desviar de pedras soltas e limosas e de buracos traiçoeiros. Por conta disso, muito fiel que vai pedir graça acaba ganhando um tombo fatal. Nas sete cavernosas capelas, habitadas por morcegos e padres possessos – e decoradas por estalactites e estalagmites de cimento (!) -, há centenas de bizarros ex-votos, como uma meia-lua feita de muletas e uma cruz com os nomes dos jogadores da Seleção Brasileira de 1994. Da subida ao topo, percebe-se que, 200 anos depois de descoberto, o rochedo encontra-se todo pichado e adulterado. Passada essa etapa inicial, a sugestão é prosseguir até a prova principal: subir o Monte Santo.
Próxima de Canudos, Monte Santo é uma das capitais religiosas do sertão. Na chegada, logo após se deparar com um estranho Antônio Conselheiro de madeira na praça principal, você se informa com algum romeiro por onde se sobe o morro e vai em frente. A escadaria é branca do início ao fim. E o fim é longe: uma igreja encravada no alto da montanha. Dez metros acima, nota-se que a parada é dura. Os degraus – pedras cortadas e quebradas – são pontiagudos e escorregadios: quedas são inevitáveis. Mais uns metros e você vê a primeira das 19 capelas, algumas construídas pelo próprio Antônio Conselheiro. Quando se chega à terceira delas, na subida que leva uma angulação de uns 600, com o sol transformando seus miolos em carne seca e suas roupas em pano de chão, você pensa seriamente em voltar. Mas não desista. Questão de honra: milhões de pessoas já percorreram aquele caminho, desde a sua criação, no século XVIII. Muita gente sobe carregando pedras ou pesadas cruzes de madeira. Sim, em pleno ano 2000. Afinal, enquanto houver Cristianismo existirão culpas a serem eximidas, e a subida ao Monte Santo nada mais é que uma reprodução da via-crúcis do Gólgota. Na real, muito mais casca grossa que a escalada de Jesus.
Não há notícia para esse tipo de esporte radical ainda – mas, bêbado pelo sol, o repórter pensou em algo como trekking místico. Poderíamos desenvolver a atividade: haveria o revezamento 4×100 com cruz nas costas, a subida direta em jejum, a marcha forçada de joelhos, a maratona Aparecida-Juazeiro do Norte… Três horas e cinco quilômetros depois, no final da prova, uma decepção: a igreja estava trancada. Só restou à reportagem contemplar o seco panorama – de onde Glauber Rocha filmou Deus e o Diabo na Terra do Sol – enquanto descansava e espantava essas bobagens da cabeça. Enfim: em tempo de padres aeróbicos, fica a idéia.
