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Minha primeira vez

Por Luiz Alberto Mendes Foto Peetssa

Não sabia, não podia imaginar. E era tudo o que precisava. Respirar paz, um mergulho na espessura do natural, o primitivo, o elementar, unidos, equilibradamente. Andava estressado com as responsabilidades que crescem a cada dia. Amélia, Roberto e Guilherme, da AuroraeEco, me esperavam. O sorriso e a boa acolhida me fizeram ficar à vontade. Começava a viagem.

Não entram carros na parte histórica da cidade de Paraty. O calçamento é com aquelas enormes pedras abauladas, gastas pelo uso. Contaram-me que não há paquera na cidade, porque se tirar os olhos do calçamento, escorrega e cai. Uma sopa deliciosa nos esperava. Estava tão cansado que fui direto para o quarto e desmaiei.

Dormi em 2006 e acordei em 1700. Quando olhei pela janela estava em uma vila dos bandeirantes. Incrível! Lembrava um quarto confortável, e era, apesar de antigo. Assoalho de madeira, janelas de guilhotina, lustres. Estávamos na Pousada do Sândi. O enorme casarão tem mais de 300 anos e conserva toda a simplicidade da arquitetura e os elementos decorativos da época do Brasil colonial. A pousada fornece ainda infra-estrutura para quem quer conhecer a cidade, as ilhas e as praias locais (65 ilhas e mais de 300 praias).

A AuroraEco faz viagens ativas. Visitando localidades e conhecendo a cultura da região visitada, a pé ou de bicicleta. O roteiro original da minha aventura seria percorrer o cami­nho da Estrada Real, o célebre Caminho do Ouro, de Ouro Preto, passando por Tiradentes, até Paraty. Nós ficamos com o mais gostoso do passeio: Paraty, onde era embarcado o ouro das Minas Gerais para a Europa. Chovia, mas todos nós queríamos fazer o roteiro programado. Saímos da cidade, em bikes sofisticadas, na direção da marina.

Na prisão, para conseguir privacidade, manter a saúde física e mental, eu corria em torno do pátio. Relógio era proibido, então contava voltas dadas. Cada volta tinha cerca de 100 metros; cada 200 voltas equivalia a 80 minutos e 20 quilômetros. O visual só de grades e muralha esgotava a mente. Era preciso disciplina férrea.

E agora estava na estrada, a bicicleta voando, as árvores, a imensidão do céu, a baía de Paraty, com seu polvilhado de ilhas, passando… Era emoção demais! A primeira queda foi inevitável. Aquela massa de natureza me empurrava pra dentro das curvas. As duas outras foram bobeira mesmo. Estava com tanta vontade de pedalar, tipo Forrest Gump, que nem olhei se havia machucado; segui pedalando. Lamentei quando chegamos. Queria, mesmo todo ralado, pedalar a estrada inteira.

Ilha obscena
Minha vida é cheia de primeiras vezes. Nesta viagem, andei de barco e estive em uma ilha pela primeira vez na vida. E foi obsceno de tão belo. A ilha do Catimbau, na baía de Paraty, é a parte poética do passeio. As pedras imensas que compõem a ilha me impressionaram. Saía do nada, em meio àquela água toda. No restaurante Eh–lahô, almoçamos uma cavala com camarão. Delicioso.

Dia seguinte éramos todos amigos. Com uma Land Rover, sacudimos nas estradinhas de terra até o Alambique. Ali encontramos a pessoa que mais me impressionou na viagem: Maria Isabel, a dona. Mulher nativa com porte de uma nobreza comovente. As pingas estavam junto aos enormes tonéis e barris de carvalho. Palco perfeito para que a anfitriã dissertasse sobre sua arte. Com sabedoria e orgulho do que faz, dissertou sobre cada pinga que nos ofereceu à experimentação. Tomei para tentar sentir o que ela dizia. Devia fazer sentido, pois a cachaça desceu suave e gostosa. O percurso que fizemos de volta nas bicicletas ficou ainda mais alegre e vivo. Passeamos pela cidade com Sergio, o sábio guia.

O casario é muito bem conservado, tudo nos fala de um passado de 400, 300 anos atrás. O que aprendemos na escola e nos parecia tão distante estava ali explodindo na cara da gente. A cada vez que dobramos uma esquina parece que encontraríamos os bandeirantes, com seus gibões e arcabuzes. Igrejas centenárias e lojas, muitas lojas em casas antiqüíssimas.

Quando a noite gelada chegou, a chuva fez o dia mais antigo ainda. Chega de passado. Fomos a uma danceteria. Paraty é realmente paradisíaca, assim tão crua, visceral e rústica quanto nós. Essa cidade foi construída para grandes acontecimentos. Primeiro foi o ouro, ali embarcado e que foi impulsionar a Revolução Industrial. Depois no ciclo do café, que deu a base da economia do Brasil. Tudo isso acabou, ficou todo o resto, conservado e lindo como antes, para todos os povos do mundo apreciarem. Em 1966 foi declarada Monumento Histórico Nacional. Veio o turismo, a Flip…

Voltamos no domingo pela manhã. Eram muitas as emoções vividas para que eu pudesse ter descansado ou rela­xado. Fiquei mais ansioso ainda por cumprir meus objetivos. São eles que me abrem as portas para viver felicidades e alegrias desse tamanho. Paraty me fortaleceu.

Vai lá | Paraty (RJ)
É logo ali: 330 km de SP (pela Reunidas, R$ 37 a passagem) ou 250 km do Rio de Janeiro (R$ 36). O pacote completo (7 noites, de Ouro Preto a Paraty) desse luxuoso rolê de bike pela Estrada Real sai R$ 4550, na AuroraEco. Saiba mais em www.auroraeco.com.br ou (11) 3086-1731

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