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Minha graça?

Então é assim. O cara muda de país, chega ao Brasil. São Paulo, ele é um imigrante. O cara veio da Espanha. Tem dificuldade em se comunicar – apesar de que todo brasileiro acha que pode falar espanhol, e o contrário não se aplica, não funciona, um espanhol não consegue fazer se entender em português. Mas tudo bem. Vence a timidez. O país é genial, demais. As pessoas são efusivas. O clima, deslumbrante. A paisagem, então, nem se fala. O cara se apaixona pelo Brasil. Termina o colegial, trabalha de dia como assistente de fotógrafo e de noite passa a fazer duas faculdades. O cara não tem carro mas é cu-de-ferro. Mata aula, pega táxi, vai para outra faculdade. Enfim, consegue ir para frente. Sai do estúdio em que estava e vai para um outro emprego. Vai para ganhar menos dinheiro, mas o cara tem certeza de que é bom para sua carreira. Começa a fazer freelancers para revistas de moda. Começa a ficar em evidência e monta um estúdio, na casa do caramba, lá no Brooklin, na época em que ninguém ia para aqueles lados.

Passa o tempo, passa a vida, passam os trabalhos. Ele consegue uma certa personalidade em suas fotos, o que poderíamos chamar de estilo. O cara vai para Nova York, a trabalho, a convite da maior editora do mercado internacional. Passam os anos e ele volta para o Brasil. Já faz dez anos desde que voltou. Contente. A vida continua. Esse cara sou eu. Durante todos esses anos assinei as minhas fotos com duas iniciais e um sobrenome. J. R. Duran. A primeira inicial é a do meu nome, a segunda do meu primeiro sobrenome. Por que assim? Porque dois escritores e um jogador de pólo (H. G. Wells, T. E. Lawrence, P. G. Meirelles) assinavam desse jeito – Meirelles ainda assina, está vivo. Achei diferente e quis fazer igual. Vinte e cinco anos atrás. No começo achei que fosse ser passageiro, depois ficou. Uma brincadeira que ficou coisa séria. É meu nome. É a única coisa que, sem dúvida, posso afirmar, é minha. Certo? Nã-nã-nã-nã-nã-nã. Errado. Presta atenção porque agora é que a coisa fica interessante.

O outro dia me ligou um advogado. Alguém (sei quem é, não vem ao caso) entrou no Inpi querendo registrar o meu nome. O que é o Inpi? É o Instituto Nacional da Propriedade Industrial. O que é que esse alguém queria? Registrar o meu nome, J. R. Duran, como sendo de propriedade dele para usos em cinema e fotografia. Entendeu? Ele (o alguém) queria registrar o meu nome como sendo dele. Não é uma troca de personalidades. Não é que o “alguém” vai passar a usar meu nome, não. Ele quer ficar dono do meu nome, que está no registro de nascimento, no meu documento de identidade, na minha carteira de motorista. Puro Kafka, meu caro, puro Kafka. O cara quer ficar dono da única coisa que tenho. Vou ter de contratar advogados, o caramba. Tudo para não deixar que levem, assim, como se nada, um pedaço de mim. Faz sentido? Não. Mas, pensando bem, alguma coisa faz sentido?

*É possível que J. R. DURAN, 53, não assine mais a sua coluna. A coluna seguirá sendo sua, já seu nome… Por enquanto, seu e-mail ainda é studio@jrduran.com.br

Ilustração Sesper

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